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    Convencionados como “adaptações”, os filmes baseados em outros suportes, seja livro, pintura, teatro ou quadrinhos, são academicamente chamadas de traduções intersemióticas. A terminologia talvez não importe tanto, mas os comentários sobre muitos filmes baseados em livros, fatalmente, caem na frase “o filme não é tão bom quanto o livro”. E não é para ser mesmo. Por que o filme é diferente do livro? Adaptação ou tradução? Nunca mais fique em dúvida, nem fale besteira sobre o assunto.

    Tradução Intersemiótica?

    A tradução intersemiótica nada mais é que a “transmutação” de um texto (e por texto leia-se “qualquer manifestação do discurso”) de uma mídia para outra. Mas o que seria mídia? Bem, mídia, a grosso modo, é o canal de estocagem ou transmissão usado para enviar informações ou dados; exemplos de mídia: tevê, rádio, internet, CD, DVD, mas a pintura é uma mídia, a dança é uma mídia, a linguagem corporal é uma mídia, o pendrive é uma mídia. Sendo assim, qualquer ferramenta ou meio de comunicação é uma mídia em si. E o que é semiótica? Muito resumidamente: é o estudo dos signos e dos sistemas sígnicos.

    A terminologia “tradução intersemiótica” ainda não é muito difundida além dos meios acadêmicos, mas foi cunhada por Roman Jakobson que classificou as traduções em três tipos:

    • Intralingual, ou paráfrase, que é reescrever um texto a partir dos signos de uma mesma língua.
    • Interlingual, a tradução propriamente dita, que seria passar um texto de uma língua para outra língua.
    • Intersemiótica, ou transmutação, que é a interpretação de signos textuais por outros signos não-verbais.

    A classificação de Jakobson é bastante reducionista. Ele ainda não tinha ideia de como as mídias iriam se desenvolver (afinal de contas, ele escreveu o texto sobre essas classificações em 1959) e como a área de Tradução se expandiria. É fato que hoje discute-se, nos Estudos da Tradução, sobre a complexidade dos sistemas culturais, sociais, tecnológicos e políticos que, via de regra, estão embricados em qualquer trabalho tradutório.

    Traduzir um texto não é mais apenas trabalhar com signos impressos em papel, mas com uma infinidade complexa de suportes, formas e semioses, sofrendo influência de tempo, lugar, singularidade pessoal do tradutor e, inclusive, influências políticas (já que a política está presente em qualquer interação humana, em qualquer nível, inclusive no discursivo e textual).

    “O livro é melhor que o filme”

    O comentário mais comum na saída de um filme que foi adaptado de um livro (ou quadrinho) é esse: “o livro (ou o quadrinho) é muito melhor que o filme”. Sim, claro. Quando lemos um texto imaginamos as personagens, criamos uma projeção mental daquele conjunto de signos impressos no papel, nós interpretamos. Ao nos depararmos com a tela do cinema, assistimos a manifestação de uma projeção que não é a nossa, mas a do diretor (que é um tradutor) normalmente.

    No cinema estamos assistindo já a uma interpretação daquele texto, não estamos assistindo o texto que lemos e interpretamos anteriormente. Exatamente por isso, o filme deixará de lado várias nuances do livro (ou do quadrinho), elegerá certos pontos da trama em detrimento de outros: é o olhar do outro.

    Além disso, estamos falando de uma indústria, a indústria do cinema, que movimenta dinheiro e trabalha com o que se chama de mercado. Os filmes seguem diretivas mercadológicas e atendem a uma audiência normalmente segmentada e específica. Os filmes precisam render dinheiro, gerar lucro. Sem citar a questão do limite de tempo e de orçamento.

    É impossível conseguir agradar a todos dentro de todo esse universo interpretativo e produtivo, no qual cada um vai construir as suas próprias imagens a partir do texto que leu. Cada espectador irá imaginar as personagens de um jeito, com uma certa nuance, irão eleger certas partes da trama como mais importantes. Fatalmente essas eleições e recortes não serão iguais aos apresentados na telona.

    Mudando um pouco a forma de olhar um filme adaptado (ou traduzido), percebe-se como é difícil julgar se é bom ou ruim apenas levando em conta a questão fidelidade do filme ao livro (ou ao quadrinho).

    Kick-Ass, dos quadrinhos para as telas

    111109-02

    Em Abril de 2008, John Romita Jr. e Mark Millar resolveram lançar, de forma independente, uma revista em quadrinhos chamada Kick-Ass. Sem esperar muita coisa, os dois foram surpreendidos pelo gigantesco sucesso da publicação, tendo que reimprimir a primeira parte da história às pressas por conta da demanda e repensar toda a estratégia de distribuição. Por conta do sucesso, o caminho até o cinema veio naturalmente.

    O trailer do filme acaba de ser lançado (e pode ser visto aqui). Esse é um grande exemplo de como as imagens podem variar e ganhar novas nuances, como a tradução intersemiótica joga, amplia, modifica o texto de base: ângulos de câmera, variações na representação dos personagens (como mostra a imagem acima) e dos ambientes. Muita coisa do Kick-Ass quadrinhos permanece no filme, claro, mas muito é modificado também.

    Duas mídias, dois universos

    Como falamos de duas mídias diferentes: quadrinhos e cinema, temos que levar em conta todo o universo cultural desses dois meios. Os quadrinhos estão, cada vez mais, sendo considerados como produtos culturais legítimos e não como expressão artística inferior, subalterna às ditas “belas artes”; além do que, as HQs possuem toda uma dinâmica artística e criativa própria, com uma tradição já estabelecida.

    O cinema, antes dos quadrinhos, já havia alcançado status de arte (sem entrar no mérito das sub-indústrias culturais do cinema) e, também, desenvolveu, com a evolução dos modos de produção cinematográficos, sua tradição e suas teorizações próprias.

    Como cada meio, seja texto escrito, filme, quadrinhos, pintura, dança, arquitetura, possui uma linguagem própria, sempre haverá uma adaptação quando dos seus trânsitos. A adaptação é uma característica natural da comunicação, assim como a tradução, mas aí já é assunto para outro post.

    Perdas e ganhos

    Em tradução se fala muito, com certa ressalva, em “perdas” e “ganhos”. Toda tradução pressupõe uma nova criação, um suplemento. O suplemento, conceito de Jacques Derrida, ao contrário da complementaridade, que adiciona algo que faltava ao texto, implica na adição a mais, positiva, ao texto.

    Por consequência, toda tradução irá pressupor uma adição, um ganho e, naturalmente, alguma perda.

    Adaptação e Tradução

    Exatamente por todos esses questões:

    • As infinitas possibilidades das interpretações.
    • A singularidade dos tradutores.
    • Os mercados consumidores.
    • As diferenças entre as mídias e as linguagens.
    • As perdas e ganhos das traduções.

    É que falar “o livro é muito melhor que o filme” nem sempre é justo ou apropriado. Pelo menos agora você vai entender um pouco mais sobre o assunto, mesmo que continue achando o livro muito melhor que o filme.

    P.S.: Tentei aqui resumir um volume enorme de informação e conhecimento. Falar de tradução intersemiótica de forma simples é um desafio que estou enfrentando aqui no blog. É uma forma de ventilar o que pesquiso, é exatamente o que falo na seção SOBRE.


    Leia também:
    A política do gosto
    Singularidade e complexidades

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    1. Beth Ramos disse:

      E por que o filme “não é para ser mesmo” tão bom quanto o livro? Na verdade, o filme pode ser tão bom quanto o livro, pode ser pior, pode ser melhor. Sei que você concorda comigo, mas fica difícil não comentar a frase lá no comecinho do texto, que está super claro para os iniciantes no assunto. Gostei.

      • Ernesto Diniz disse:

        Perfeito. Sim, o filme não é para ser, exatamente, melhor ou pior. Na verdade a tradução intersemiótica é um novo texto, uma nova criação, uma nova produção.

        Gostei muito das reações a esse post, acho que vou escrever uma série de textos especiais sobre tradução intersemiótica.

    2. Lorena Bastos disse:

      Adorei essa citação de Derrida.
      O texto tá ótimo.
      Parabens!

    3. Pedrecal disse:

      Acho que vc está se saindo muito bem no desafio que se propôs, Ernesto! O texto está bem didático, acessível, com uma linguagem simples e clara, ótimo para aqueles que nunca ouviram falar de tradução intersemiótica terem uma idéia do que se trata.

      Acredito que todos nós em algum momento já reforçamos o coro do “o livro é sempre melhor”, rs, rs… A minha sensação é a de que estudar tradução inevitavelmente acaba nos deixando um pouco mais, digamos, compreensivos, já que ajuda na percepção e entendimento de que livro e filme são duas mídias/experiências/emoções distintas, embora absolutamente suplementares.

      Lembrei-me agora dos filmes adaptados de games, uma modalidade que também acho muito interessante (”Prince of Persia” vem aí!).

      Beijão! ;)

    4. Ernesto Diniz disse:

      Quadrinhos convergem com cinema. Comentários do blog convergem com Twitter. Tradução intersemiótica em: http://bit.ly/2ah5iZ

    5. Adalton Silva disse:

      Cara, engraçado isso, eu já estava pra te mandar um e-mail pedindo referências básicas onde eu pudesse falar mais sobre tradução intersemiótica (a Rosemary Arrojo já não está mais dando conta, :P ).

      Usarei esse texto como referência quando eu cair em alguma discussão pós cinema. hehehehehhehe

      • Ernesto Diniz disse:

        A Rosemary Arrojo é boa, mas é a ponta do iceberg. Se quiser mais referências, é só pedir!

    6. M. disse:

      Não li o texto todo que fiquei com preguiça. Mas é interessante ver como sempre se “puxa a brasa para a própria sardinha”. Explicando: você diz que o diretor é um tradutor, algo que eu jamais diria. Ele é um intérprete e todo tradutor é um intérprete. A não ser que o conceito de “tradutor” que você trabalha seja algo tão amplo que seja sinônimo de “intérprete”. Mas pro mundo em geral não é.

      • Ernesto Diniz disse:

        Não se identificar já foi sintoma de certa covardia, o que atrapalha qualquer discussão madura, mas acho importante explicar.

        Tradutor e intérprete, em várias instâncias, são conceitos (quase) equivalentes. Toda pulsão comunicativa pressupõe uma tradução (de transformar signos em sons, de sons em ideias, de ideias em articulações do aparelho fonador, etc.) e uma interpretação (entender e articular sentidos, criar sentidos, veicular sentidos, etc.). Não há como separar uma coisa da outra: traduzir é, muitas vezes, interpretar; interpretar é, muitas vezes, traduzir.

        Sendo assim, o diretor não é APENAS intérprete, no mínimo um intérprete-tradutor. Não falei em “tradutor” ou “intérprete” como conceitos mercadológicos, mas como conceitos para reflexão não só teórica, mas também cultural, um pouco além do senso comum.

        Essa é a proposta desse blog, trazer novas discussões. Se tivesse lido o texto todo, teria entendido. Apenas tentei ser objetivo e didático.

        Obrigado pelo comentário.

    7. RT @ernestodiniz Tradução intersemiótica, rapidamente: http://bit.ly/2ah5iZ. Saiba finalmente que diabos é isso. #tradução #intersemiótica

    8. RT: @ernestodiniz: Tradução intersemiótica, rapidamente: http://bit.ly/2ah5iZ. Saiba finalmente que diabos é isso. (via @carolcustodio)

    9. RT @ernestodiniz: Tradução intersemiótica, rapidamente: http://bit.ly/2ah5iZ. Saiba finalmente que diabos é isso. #tradução #intersemiótica

    10. adaltonsilva disse:

      RT @ernestodiniz: Tradução intersemiótica, rapidamente: http://bit.ly/2ah5iZ. Saiba finalmente que diabos é isso. #tradução #intersemiótica

    11. Ernesto Diniz disse:

      Tradução intersemiótica, rapidamente: http://bit.ly/2ah5iZ. Saiba finalmente que diabos é isso. #tradução #intersemiótica

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