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    Sem dúvida a educação nos tranforma. Cada leitura, cada discussão, cada novo trabalho nos traz novas questões, novas nuances, alteram a percepção sobre nossos interesses. No entanto a formação acadêmica é uma questão delicada para muita gente, porque, muitas vezes, o acesso a uma instituição de nível superior nem sempre é uma opção. Na área de Tradução ainda há outras nuances mais complexas. Afinal, para ser tradutor é preciso ter um diploma?

    Trabalho com tradução há pelo menos 4 anos formalmente, mas já traduzia (não profissionalmente) desde adolescente. Tenho plena consciência que não se deve subestimar o auto-didatismo, até porque aprendi inglês, na verdade, por puro interesse próprio. Mas até onde esse tipo de aprendizagem pode nos levar até que se estabeleça algum tipo de impasse?

    Hoje, 2009, creio que os impasses dentro da área profissional de Tradução apontem muito mais para questões de mercado e relacionamento com pessoas do mercado (se você conhece bons profissionais que te indiquem e sejam facilitadores, se tem acesso a boas redes de trabalho, etc.), do que propriamente apontam para um impasse acadêmico – em termos práticos. O tradutor técnico e literário, em sua grande maioria, não possuem formação na área.

    Essa questão simples aponta para uma outra questão: vale a pena, em termos de tempo, dinheiro e esforço, passar 4 anos da sua vida num curso de nível superior? Todos temos ótimos exemplos de pessoas que nunca passaram pela academia e têm ótimas carreiras, em qualquer área. Essas pessoas normalmente têm gosto pelo estudo e uma nível de disciplina maior que o normal.

    Então até que ponto esses exemplos de auto-didatas são relevantes para você?

    Por que ir à faculdade?

    É verdade que hoje o campo da Tradução está em franca expansão. Sendo bastante reducionista e objetivo, há pelos menos quatro grandes áreas de atuação dentro da prática da Tradução: a tradução mais “old school” (aquela em que os profissionais traduzem textos escritos de uma língua para outra, estejam eles alocados em agências de tradução ou como freelancers), a audiodescrição (área em que os audiodescritores narram espetáculos para pessoas que têm algum tipo de deficiência, seja visual ou auditiva), interpretação (os intérpretes, que fazem tradução consecutiva) e a área de legendagem (junto com os “old school”, são os mais conhecidos e, talvez, os mais odiados; são os tradutores que seguem conformações, regras e limitações da mídia em que trabalham).

    Todas as áreas citadas possuem técnicas próprias e são bastante diferenciadas umas das outras.

    Atualmente existe uma distorção entre o senso-comum geral (que, muitas vezes, está alinhado ao pensamento do mercado) sobre o que, de fato, é preciso para formar um bom tradutor. De forma geral, espera-se do tradutor (e normalmente só se pensa no tradutor “old school”, aquele dos textos e dicionários):

    • Pleno conhecimento sobre sua própria língua
    • Pleno conhecimento sobre a língua para a qual irá traduzir
    • Conhecer as ferramentas eletrônicas de tradução

    Mas, na verdade, numa tradução não há apenas uma relação binária entre línguas. O processo tradutório ativa muitas outras bagagens, experiências e vivências: as culturas de ambas as línguas, as mídias envolvidas nessas traduções e o modo de tradução (para quem, com que objetivo, seguindo quais diretivas de trabalho).

    Assim ampliamos a relação tradutória para uma relação entre linguagens e culturas e não apenas entre línguas.

    Sendo assim, um bom tradutor deveria ter conhecimento sobre:

    • Localização
    • Transculturação
    • Nuances semânticas
    • Modulações hermenêuticas
    • Microestilística
    • Reescrita
    • Co-autoria
    • Polissistemas
    • Intersemiótica

    Esses são apenas alguns pontos. Claro, esses jargões já são o bastante para confundir a cabeça de muita gente. Talvez confunda até mesmo alguns tradutores profissionais que ainda não têm nenhum conhecimento sobre os novos aspectos modernos da Tradução.

    Até porque os cursos superiores sobre Tradução ainda não existem em grande número, e muitos não possuem uma abordagem transdisciplinar e aberta, como a Tradução, em todas as suas manifestações, hoje, exige. Sendo assim, o descompasso entre o mercado, a academia e o mundo vai aumentando.

    As certificações e cursos ajudam

    Existe muitas certificações em Tradução sendo oferecidas em todo o país, por várias instituições e associações. Muitos profissionais de tradução (o profissionais “old school”) ampliam seus conhecimentos investindo em certificações conhecidas internacionalmente, o que pode custar muito dinheiro. Outros aproveitam boas referências e um ambiente de sociabilização (que hoje é tão importante) e fazem cursos e workshops. Dessa forma, além de agregarem conhecimento, ainda aproveitam para reencontrar outros profissionais e fazer novos contatos.

    Para ser um bom profissional, no entanto, não é preciso, obrigatoriamente, ter uma certificação específica no currículo. O que é mais importante é ter conhecimento vasto sobre as línguas e propor-se a estar sempre em contato com as culturas dessas línguas, seja estudando, lendo, participando de redes sociais ou fruindo produtos culturais.

    Diploma não é tudo

    Seja em qual Universidade Federal você tenha se formado, seja lá qual certificação internacional você tenha, apenas o papel não garante a você um lugar no Olimpo dos Tradutores (se esse Olimpo existir). Não é porque você não fez tal curso ou frequentou a turma de tal professor que sua carreira estará fadada à mediocridade.

    Se você tiver a oportunidade de conversar com qualquer tradutor experiente entenderá que o diploma apenas não garante muito. Na maioria das vezes isso é o que menos importa.

    Ganhando pontos

    O mercado de Tradução está passando por uma expansão um pouco obscura. Novas áreas surgem a partir de novas demandas e a partir, também, das reflexões e de proposições nascidas a partir da academia. Não existe uma Teoria da Tradução, e se existe ela está em construção.

    Quem quiser ganhar espaço na área tem que se informar bem sobre o que anda acontecendo e, com essas informações, saber o que quer. A tradução de textos já não é a única forma de ganhar dinheiro na área, mas, claro, é a forma mais procurada e estabelecida. Apesar de não serem em mesmo número que os cursos “old school”, formações de audiodescritores e intérpretes já acontecem em vários lugares do Brasil.

    No final das contas cada certificação, cada curso, conta. Você vai acumulando pontos, reflexões e passando por amadurecimentos que um tradutor do tipo dicionário-língua, normalmente, não passa.

    E se eu não puder correr atrás de um diploma?

    Não precisa se preocupar. Como falei anteriormente, o profissional que estiver envolvido dinamicamente com as culturas, linguagens e línguas que quer lidar estará sempre trabalhando para melhorar seu posicionamento.

    Claro que hoje vivemos os tempos do sicionomics [o que é socionomics, em inglês], então faça contatos, conheça pessoas, envolva-se. Não basta apenas assistir aulas e ler textos, o mercado de tradução em agências, e até mesmo freelance, é fechado. Participe de listas de discussão, faça traduções pessoais para começar a sentir mesmo como é a dinâmica da tradução em si e, muito importante, comece a usar os programas de tradução mais comuns, como o TRADOS ou o Wordfast (que são pagos, infelizmente).

    Formação continuada e experiência além do experimentar

    Saiba que com ou sem formação, o mercado de trabalho, na maioria das áreas, demanda constante esforço de atualização e aprendizagem, então esteja preparado para viver a Tradução no seu dia-a-dia.

    Você é bem mais que seu currículo e nenhum currículo conseguirá expressar a sua experiência verdadeira dentro da área. Ter formação é muito importante e, em vários casos, é exigido um diploma ou uma certificação específica. Vá acumulando vantagens e mantenha-se em movimento. As suas experiências, junto com a sua rede social e os trabalhos realizados, moldarão a sua cara para o mercado. As oportunidades vão surgir naturalmente, seguindo a máxima do “um trabalho (bem feito) puxa o outro”.

    Você é o que você faz

    Como falei aqui no texto, comece a perceber que traduzir um texto, fazer uma legenda de filme, não é apenas um trabalho técnico e mecânico. Na verdade traduzir não começa quando abrimos um texto ou um livro, mas sim a partir do momento em que pensamos numa imagem e produzimos um som para comunicar a nossa idéia.

    Mais que certificados, diplomas, cursos, somos o resultado do que fazemos.

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    1. Verônica disse:

      A gente não ensina aquilo que sabe,
      A gente não ensina aquilo que quer,
      A gente ensino o que a gente é!

      Jean Jacquies Jaurés

      E tenho dito… eu não, né? Ele aí… eu só concordo!
      rsss

    2. Luciana disse:

      Com certeza formacao apenas nao conta. Ainda mais porque se voce vai procurar emprego fora do país de onde obteve sua formacao, ninguem vai dar credito; diferentemente de quando voce diz que tem experiencia com alguns dos conhecidos CATs(ferramentas de traducao). A verdade eh essa, mas claro que há como negociar estudos e experiencia profissional, garantido, as vezes, um bom retorno. Seja ele economico ou apenas a boa e velha sensacao de estar bem.

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