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Estava eu discutindo com um amigo, no fim de semana, sobre bons exemplos de ilustradores e designers. O amigo defendeu seu time, eu escalei o meu, todo no ataque. A conversa, claro, espichou-se e não tive como não lembrar de Umberto Eco e um outro time de pessoas. No fim percebi que defendÃamos gostos e não instituições artÃsticas. Sim, esse post vai ser grande e vai adicionar mais pontos ao meu hábito de falar sobre muitas coisas ao mesmo tempo.
A discussão de fim de semana me fez pensar sobre o que é “ser bom” hoje profissionalmente, principalmente quando estamos falando de arte ou produção estética. Descarto aqui as reflexões sobre ética e competências (para não lembrarmos do nosso querido Senado e afins). A verdade é que não sou crÃtico profissional, li muita coisa de gente que passeia por esses mundos: Umberto Eco, Harold Bloom, Foucault, Roland Barthes, Deleuze, Walter Benjamim, Hauser, Derrida, Bauman, teóricos e pensadores que falaram e falam bastante sobre questões da cultura e da sociedade. Mas me inscrevo no grupo gigantesco que existe hoje de blogueiros, jornalistas e todo tipo de ser humano que se inscreve em grupos diferentes da sua formação especÃfica (e, naturalmente, opinam com nÃveis variados de propriedade sobre assuntos especÃficos de várias áreas).
A discussão que tive através de um programa de mensagens instantâneas me fez pensar no que venho discutindo ostensivamente com colegas de mestrado e professores: quais os parâmetros para se avaliar uma produção artÃstica hoje? Há modelos? Já vejo em alguns blogs e discussões offline a defesa de que estamos voltando à crÃtica do gosto (ou dos gostos, pro mais politicamente corretos). Concordo com o sociólogo Manuel Castells quando ele fala em seu livro Sociedade em Rede que estamos vivendo no século XXI uma profunda crise das instituições, uma profunda transformação em vários nÃveis. Não acredito que o determinismo tecnológico seja, comungando com o Castells ainda, o único responsável por essas alterações (que não são apenas institucionais e fazem parte de um processo constante de transformação). A formação dessa nova economia, cultura, sociedade inscreve-se num modelo complexo.
“É claro que a tecnologia não determina a sociedade. Nem a sociedade escreve o curso da transformação tecnológica, uma vez que muitos fatores, inclusive criatividade e iniciativa empreendedora, intervêm no processo de descoberta cientÃfica, inovação tecnológica e aplicações sociais, (…) a tecnologia é a sociedade, e a sociedade não pode ser entendida ou representada sem suas ferramentas tecnológicas.”
O que vivemos hoje? O que nos representa hoje enquanto usuários de ferramentas tecnológicas são: redes sociais, blogs, serviços de produção, compartilhamento e difusão de conteúdos. Quem nos dirá o que é bom ou ruim? E como pensar em “bom” e “ruim” de forma taxativa? ImpossÃvel. Sim, vivemos a era dos gostos, dos recortes, dos grupos, da glocalização, localização, singularidades, marketing viral e de guerrilha, iniciativas além do consumo, produtos cada vez mais pensados de acordo com a sua real utilidade e não mais apenas para serem comprados e consumidos. Lembrei do Umberto Eco na ocasião da minha discussão informal de fim de semana por conta do que ele chama de “crÃtica apocalÃptica”, no seu livro ApocalÃpticos e Integrados, quando os crÃticos de qualquer tipo de arte munem-se de argumentos contra “as massas” ou “a modinha do momento”:
“O [crÃtico] apocalÃptico não só reduz os consumidores à quele fetiche indeferenciado que é o homem-massa, mas – enquanto o acusa de reduzir todo produto artÃstico, até o mais válido, a puro fetiche – reduz, ele próprio, a fetiche o produto de massa. E ao invés de analisá-lo, caso por caso, para fazer dele emergirem as caracterÃsticas estruturais, nega-o em bloco. (…) Esse é um dos fenômenos mais curiosos e apaixonantes daquele fenômeno de indústria cultural que é a crÃtica apocalÃptica à indústria cultural.”
O apocalÃptico acredito e prega, qual um homem-sanduÃche no meio da rua, a “morte do rock”, a “morte da ‘verdadeira’ arte”, a “morte da música clássica”, a “morte da ‘verdadeira’ literatura”, todas as mortes de todos os tipos de expressão artÃstica, negando, como bem disse o Eco, todo o contexto e o evento em bloco como algo inválido. Enquanto os integrados dão uma resposta otimista, já que as expressões artÃsticas colocam os bens culturais à disposição de “todos”. A maioria, hoje, trabalha nas duas posições: ora defendendo seu gosto apocalipticamente, ora sorrindo, integrado.
O que se fala muito hoje, também, nas palestras sobre comunicação e marketing é que o componente institucional está dando lugar à relevância. O que é bom hoje não é bom porque alguém (importante) disse que é bom, mas porque alguém (importante ou não, mas com quem me identifico) disse que é bom. Isso muda muita coisa e, arrisco eu a dizer, talvez seja esse o ponto importante para observar as mudanças nas relações não só de consumo mas de difusão de conteúdos.
O modelo comunicacional de Jackobson, no qual prega-se papéis de “emissor”, “receptor”, “mensagem”, está sendo colocado em perspectiva – os papéis são cambiáveis o tempo todo. O hic et nunc (aqui e agora) de Walter Benjamim nunca foi tão importante: o que realmente tem relevância no mundo em rede é o está acontecendo agora, porque o que passou, passou (e nossa memória é limitada) e o futuro está chegando rápido demais pra podermos refletir o tempo todo sobre suas possÃveis implicações. Enxergo o cenário hoje muito menos como causa e efeito, mas como uma relação espantosa de ações e reações em várias camadas e com várias intensidades, tudo ao mesmo tempo.
Claro que não é tão niilista quanto pode parecer, mas o caos harmônico está posto.
Tudo isso me fez pensar sobre o que realmente é “bom” hoje: ilustradores com formação na área, designers que aprenderam seu ofÃcio sozinhos, artistas aplaudidos pela velha crÃtica apocalÃptica? Ainda há gente acreditando na Verdade, com letra maiúscula. No fim do papo com meu amigo, depois de muito discordar, concordamos que temos referências diversas (o que não invalidou o papo, porque não acredito em concordâncias pacÃficas).
Eu sei do que gosto e, com algum esforço, sei justificar meu gosto com minhas referências e minhas história (minhas singularidades; singularidades talvez paradoxalmente no plural). Acompanho outros que compartilham mais ou menos dos meus gostos e assim crio a minha cadeia de relevância.
Essa é a minha opinião, baseada nas minhas referências. E você a� O que é bom pra você?
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Update em 26/09 à s 11:31am: Por falar em crÃtica apocalÃptica, no blog Libellus saiu um artigo que faz uma crÃtica exatamente à “morte dos blogs”. O texto se chama “Morte dos blogs: menos barulho e mais foco” e comenta sobre a tendência reducionista de falar em “morte” das ferramentas (ou dos movimentos).
Discordo apenas de uma frase da Beth Saad citada nesse post:
“O termo complementariedade é fundamental. Cada uma das ferramentas – blog, twitter, facebook, por exemplo, possuem caracterÃsticas próprias de estilo narrativo e forma de relacionamento com os leitores/usuários/seguidores.”
Prefiro pensar em suplementaridade quando penso em ferramentas. E suplementaridade como um termo emprestado do Jacques Derrida, a partir do qual fala-se não sobre o que falta e pode ser completado (complementaridade), mas o que pode ser adicionado além do que já se tem (suplementaridade).
O post da Beth Saad falando da morte da blogosfera também é muito interessante, vale a leitura: “O mais novo buzz: morte da blogsfera (???)”, no intermezzo.
































[...] A polÃtica do gosto [...]
[...] É exatamente o que percebe-se hoje. Não só restrito ao campo artÃstico, mas informacional, social. A quantidade de informações, como uma nova variável na vida cotidiana do final da primeira década do ano 2000 (e isso não é nova novidade), vem impactar mais ou menos como a reprodução técnica da obra de arte que perde sua aura, que é colocada em perspectiva. A informação perdeu seu centro emissor, perdeu sua verdade absoluta, sua univocalidade, sua linearidade, sua singularidade. Não vivemos mais a angústia do débito, o medo do simulacro, da repetição, da reprodução, pelo contrário, esse agora é o combustÃvel que alimenta a produção e difusão das informações e fortalece os vetores e fluxos numa complexa rede multicentrada. As informações são transmitidas, retransmitidas, reproduzidas, distorcidades em velocidade viral e acompanhando um modelo caótico. Exatamente por isso, a informação em si não é mais o centro da questão e sim a relevância da informação. Estamos voltando à cultura oral (orientada pelos multimeios), à polÃtica do gosto (leia o post anterior que escrevi sobre a polÃtica do gosto). [...]
Falando dos gostos e das relevâncias. "A polÃtica do gosto" (já com update feito agorinha): http://bit.ly/6CPt3. #arte #internet #sociedade
Assumindo a parcialidade da arte, da vida. "A polÃtica do gosto" em: http://tinyurl.com/mo45tn. #arte #tecnologia #internet