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    Entre os dias 27 de julho e primeiro de agosto aconteceu, no Teatro Castro Alves, em Salvador, o V Seminário Internacional de Cinema e Audiovisual. O homenageado desse ano foi o diretor Godard, com uma mostra retrospectiva que contou com 15 filmes. No evento também aconteceram seis mesas redondas, mas assisti apenas a três delas.

    O SemCine foi um momento bastante interessante. Sou pesquisador da área de Tradução, mas estou totalmente consciente da relação entre Cinema e Tradução, especificamente nos estudos de Tradução Intersemiótica, então senti que era a oportunidade de ver bons filmes, assistir a boas conferências que, naturalmente, tocariam em vários pontos da minha pesquisa que se concentra em eventos tradutórios em várias mídias, na Sociedade em Rede e na Tecnologia.

    Mesa II – Quando o cinema é arte

    Essa mesa aconteceu na manhã do dia 28 de julho e contou com Monclar Valverde (Bahia), Kristian Feigelson (França) e foi mediada pela Edilene Dias Matos.

    Cheguei ao teatro atrasado, exatamente a tempo de ouvir as últimas frases do Monclar, mas anotei o nome do seu livro (A Estética da Comunicação).

    A Edilene Dias começou a sua fala dizendo que a Literatura se aproveita e amplia a ambiguidade da língua e ampliou sua reflexão falando sobre o impulso do artista. Esse impulso é movido pela falta do outro, pela insatisfação com o signo e sua representatividade.

    Em certo momento, achei seu discurso pouco sintonizado com algumas áreas de estudo, principalmente a Tradução (sua formação é em Literatura). Ela falou sobre adaptações fílmicas – e fez questão de criticar a terminologia “adaptação” – enquanto manipuladoras do texto-fonte. Lembro-me exatamente de uma frase dela que me marcou e achei bastante infeliz: “o filme deve manter a fidelidade ao espírito do texto, a sua essência”; fiquei me perguntando o que ela entendia por “espírito do texto” e “essência” (conceitos totalmente abstratos e imprecisos).

    Na área de Tradução Intersemiótica, muitos tremem só de ouvir essas duas palavras, ainda mais em se tratando de adaptações para o cinema, mas acho que, abstraindo a neurastenia acadêmica, é bastante impróprio reduzir a tradução de um texto para a telona a um devedor a priori, que precisa ter como objetivo primeiro dar conta  desse primordial “espírito do texto”.

    Os filmes são produtos autônomos, novos, são ressignificações, não possuem dívida a priori com o texto que lhes serviu de fonte. Obviamente esse é um raciocínio talvez muito sofisticado para a maioria das pessoas, mas sustentar argumentos hierarquizantes entre o Cinema e a Literatura com base em visões restritivas dos objetos de estudo é totalmente indesejado. Os vetores que implicam na construção de um filme adaptado de um livro não passam apenas pelo texto escrito, mas por inúmeras variáveis culturais e outras tantas que não têm nenhuma relação direta ou exclusiva com a Literatura em si.

    Os estudos de Tradução Intersemiótica surgiram há pouco tempo e vêm exatamente tentar ocupar essa lacuna nas reflexões sobre os trânsitos dos textos (textos num sentido amplo, sendo qualquer acontecimento, discurso ou produto cultural) entre as várias mídias (cinema, tevê, dança, pintura, escultura, literatura, etc.).

    Já o Kristian Feigelson problematizou a arte. Seria ela uma prática individual ou coletiva? Também refletiu sobre a diversificação dos públicos e sobre as convergências entre artes, com o espetáculo criando interferências em outras artes (a confusão e profusão pós-moderna). As artes seriam uma espécie de evento problemático, sempre perpassando questões de simulacro e imitação da realidade.

    Mesa III – O futuro do cinema

    No mesmo dia, à tarde, deu-se a terceira mesa redonda chamada de O futuro do cinema, que contou com Kiko Goifman (São Paulo), Montserrat Marti (Espanha), Pedro Paulo Rocha (São Paulo) e foi mediada pelo Arlindo Machado (São Paulo).

    Essa foi a palestra mais instigante do evento. O Kiko Goifman falou suas experiências e experimentações no cinema, ele foi o responsável por vários filmes como FilmeFobia (2008), Atos dos Homens (2006), Território Vermelho (2004), Morte Densa (2003) e 33 (2002).

    Terminei me concentrando mais na fala do Pedro Paulo Rocha, o filho do Glauber Rocha, que me pareceu um cara bastante combativo, despreocupado com as convenções frágeis e com um jeito muito inquietante de encarar o Cinema. Dentre outras coisas, ele comentou sobre a dispersão dos públicos, as multidões moleculares, falou sobre como o vídeo hoje está em todo lugar, de várias formas diferentes. Ele enxerga o Cinema, especificamente, como uma arquitetura, como um novo locus que não se encontra mais apenas no centro, mas difuso entre vários veículos, platéias e modos de produção. O público hoje faz cinema também, ele influencia e determina, numa relação dialógica entre mercado e consumo, o que faz sucesso (seja lá através de qual forma que isso seja aferido em números).

    Ele também comentou sobre o iniciativas em Cinema Interativo e Transcinema (o Cinema além da tela e do corpo) e de como as novas mídias criaram novas formas de interação entre os corpos, sendo a platéia não mais uma instituição estática, mas confundida com autores, diretores e produtores. Segundo ele, o poder está em cheque, está instalada, de fato, a decadência da instituições. E, derivado desse raciocínio, a descentralização da emissão, a não-linearidade e simultaneidade do cinema, configura um caos harmônico e libertador.

    Achei uma frase dele muito boa: “Temos que transar com o simulacro”.

    Terminei preenchendo uma folha inteira com anotações. Num ponto da comunicação, não olhava mais para ele, mas para o papel: era uma profusão de idéias. Foi o que precisava para me satisfazer com o evento.

    Hoje é realmente muito importante transitar por vários espaços, buscando conhecimento não apenas na nossa área.

    Mesa V – Pensar o cinema

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    Nessa mesa, que aconteceu na tarde do dia 29 de julho, apresentaram-se a Silvia Swcharzbock (Argentina), o Gerardo Yoel (Argentina) e o Muniz Sodré (Rio de Janeiro), todos mediados pelo Célio Garcia (Minas Gerais).

    Achei essa a mesa mais confusa de todas, não fiz nenhum anotação. A fala do Yoel foi bastante interrompida pela sua confusão com suas anotações e constantes checagens de tempo. O assunto começou muito interessante, ele falando sobre um evento de cinema organizado na Argentina (mas o fato de eu não lembrar do nome é mal sinal), mas terminou quedando-se enfadonho. A apresentação da Swcharzbock, que é especialista em Estética, também não foi muito boa. Ela se concentrou em Lynch e outros diretores, mas leu quase todo o tempo (o que transformou sua fala em suplício para os ali presentes).

    Resolvi filmar a fala do professor Muniz Sodré e disponibilizo aqui o vídeo:

    Link para o vídeo

    Acho que esse é um registro que dispensa grandes comentários.

    Os filmes da mostra e o the end

    Assisti poucos filmes da mostra, por conta de uma semana atribulada com outras obrigações. Destaque para Almoço em Agosto, do diretor Gianni de Gregório, e o belíssimo documentário finlandês Espelho Sonoro, do diretor Mika Kaurismäki. De Godard, assisti apenas O Pequeno Soldado. Foi o primeiro Godard da minha vida e fiquei traumatizado, para mim o filme é parte de uma técnica avançada de tortura. Vou me dispor a ver outros título do diretor francês num futuro próximo para ter uma impressão menos parcial.

    Parabéns ao pessoal da produção do evento que trouxe um material muito rico e interessante não só para as pessoas envolvidas com cinema, mas para outros profissionais de áreas afins e para o público em geral. Ano que vem tem mais.


    P.S.: Continuo escrevendo sem levar em conta as novas regras da ortografia da língua portuguesa, e continuarei assim. Acho ridículo essas novas “regras”, mas aí já é papo para outro post.

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    1. Carol Custodio disse:

      se eu for comentar esse post de maneira apropriada, terei de escrever outro post. mas, resumindo, achei muito ridícula a postura de alguns participantes das mesas e a pior foi a dona Edilene Dias, que parece que realmente não sabe a diferença entre estruturalismo e pós-estruturalismo e pegou o pior dos dois e fumou um baseado maluco ali na nossa cara. o seminário, no geral, foi excelente. o melhor foi a mostra de curtas internacionais e os filmes especiais, como esse italiano e o chileno, “A Boa Vida”. e concordo com você, amor, temos aí dois anos para aprender a escrever de novo e quem quiser que se arranque pelas partes.

    2. Ernesto Diniz disse:

      Aqui minha experiência no V Seminário Internacional de Cinema e Audiovisual (com vídeo): http://tr.im/vFKk. #cinema #semcine

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