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Terminei de ler um texto muito bom: O brasileiro e as novas mÃdias, escrito pelo Gustavo Mini, no blog OEsquema. Não vou repetir o texto aqui, mas ele discute, em linhas gerais, sobre as generalizações e homogeneizações que os publicitários parecem fazer cada vez mais.
Creio que essa tendência de tirar uma média geral não anda acontecendo apenas com a Publicidade e o Marketing, isso parece ser mal generalizado. Cito uma parte do texto do Mini para ilustrar:
“Isso me remete direto à quelas matérias do Fantástico ou do Jornal Nacional que vão pela mesma linha: o ‘brasileiro está comendo mais feijão’ ou ‘o brasileiro está comprando mais’ ou ‘o brasileiro está pagando mais à vista’ ou ‘o brasileiro está tomando mais remédio pra dormir’ e por aà vai. Sempre que essas matérias passam, eu me pergunto: quem será esse brasileiro? Onde ele mora? Será que existe UM cara, o brasileiro, que a Globo vai lá e entrevista pra saber? O brasileiro um dia resolveu comprar DOIS sacos de feijão em vez de um, só porque vai ter feijoada, e o noticiário dá: ‘BRASILEIRO COMPRA MAIS FEIJÃO’. Deve ser um saco ser esse cara, porque ele não pode espirrar que lá vem: ‘BRASILEIRO ESPIRRA MAIS’.”
Não que eu queira generalizar o posicionamento profissional e cientÃfico do planeta inteiro. Falo do meu lugar de fala, de tradutor e pesquisador acadêmico, mas a generalização ainda faz parte das discussões mais abertas e mais despudoradas de qualquer debate.
Nas aulas do mestrado, ouço e participo de discussões sobre Educação, por exemplo, e se uma parte do grupo aplaude os modos freirianos de formação, celebrando a singularização das salas de aula, outro grupo torce o nariz e mostra, com cara feia, a “realidade da prática profissional”. Esses dizem que a “realidade”, muitas vezes, “pede” que a generalização aconteça. Tudo para o bem do professor, oprimido pelos famosos “baixos salários” e “condições insalubres de trabalho”. Tudo igualzinho à s notÃcias do Jornal Nacional ou do Fantástico. Generaliza-se em nome de melhorar a digestão dos fatos, simplificar as coisas ou, talvez, para dificultar o posicionamento crÃtico, a análise mais atenta e o desafio de dar a cara ao tapa.
As discussões acadêmicas e cientÃficas lançam mão, também, desses pequenos “males necessários” (eu poderia abolir as aspas do texto, mas elas pluralizam) para haver um ponto-comum de onde possam partir as discussões. Mentira. O Gustavo Mini fala, no seu texto, da impossibilidade da existência do “novo consumidor”. Da mesma forma, é impossÃvel falar de um alunado geral, de uma realidade geral, de uma formação geral, de um conhecimento geral, de um contexto geral, ainda mais hoje. Nada mais é isolado no tempo e no espaço, tudo dialoga e reverbera em todas as direções.
Talvez o fluxo de informação e as possibilidades criadas com os usos das novas mÃdias tenha ampliado de forma assustadora a consciência sobre esses recortes da “realidade” (ou das “realidades” como uma amiga minha costuma me corrigir). A transdisciplinaridade está aÃ, desafiando profissionais de todas as áreas: a idéia de “cada um no seu quadrado” vai sendo relativizada.
Talvez isso pareça confuso à primeira vista, como se houvesse a necessidade de se abarcar um número incalculável de variáveis. Essa não deve ser a abordagem. O professor José Lambert, uma das figuras mais importantes dos Estudos de Tradução na Europa, durante uma uma palestra na UFBA, abriu um parêntese dentro da sua apresentação para responder a uma pergunta simples: “de onde você é?” (assista a aula dele aqui). Ele demonstrou, para surpresa de todos que assistiam, como era complexa a “realidade” daquele pequeno paÃs chamado Bélgica.
Dias depois, fazendo um tutorial com ele sobre meu projeto de pesquisa, ele me mostrou, novamente, como a “realidade” pode ser múltipla, complexa e que temos, como pesquisadores ou como cidadãos comuns, que estar conscientes da multiplicidade das variáveis e da complexidade de qualquer objeto. Foi aà que deixei em stand by o meu projeto sobre o Rei Artur e parti para outra paixão mais urgente: o que acontece hoje na sociedade, via tecnologia, que reverbera na Tradução. Nunca traduzimos tanto, de tantas formas e com tamanha necessidade de fazê-lo.
Sou a favor da singularização dos cenários e sei que isso traz outros problemas e perguntas. Os modelos complexos (meu bom Edgar Morin!), os contextos mutáveis, os múltiplos vetores incidindo em qualquer objeto de trabalho ou pesquisa, isso tem que ser levado em conta sempre. Não que tenhamos que cair numa neurose intelectual de querermos consciência plena de cada conteúdo que colocamos em cada caixinha. Haverá sempre um ponto cego, sempre. Mas não se pode mais apenas apelar para as matérias do Fantástico ou para pontos confortáveis de discussão.
Perguntar sempre. Se as perguntas são boas ou ruins, isso virá com o tempo e as experiências. E, talvez mais importante, ousar discutir soluções, experimentar, pôr as perguntas à prova. Qualquer formação hoje não pode basear-se apenas na teoria das médias, mas numa teoria fundamentada e aberta a constantes reanálises.
O Gustavo Mini fecha seu texto com uma pergunta: “será que o publicitário está generalizando mais?” e eu ouso responder que sim, e não só o publicitário. Ele e profissionais de várias áreas parecem estar generalizando mais, talvez por medo dessa complexidade. Não há gigantes a serem mortos e sim novas alianças a serem feitas.
































[...] Leia também: A polÃtica do gosto Singularidade e complexidades [...]
Carol
Tocou ali em mim, bem ali, ali mesmo… onde eu se escondia ou eu tapava!?
Sim tocar é algo bom e assim como vc mostra fazer mais ainda.
Sobre o que pensamos, fazemos, falamos… sobram as reticências…
hoje, indo para o trabalho no ônibus seco, ficou difÃcil encontrar onde eu estava. há ambientes fÃsicos especialmente desenvolvidos (aqui, palavrório de manual que traduzo no dia-a-dia) para a generalização: mata-se o ego do sujeito em dois segundos. você, eu, nós viramos um grande coletivo de solidão, pobreza, cansado, saudade (aeroportos), arrogância (ala acadêmica da viradouro de vai-vai UFBA). e há espaços imateriais, as sinapses flamejando loucas pelas conexões as mais hÃbridas, vamos, vamos, deixem de ignorância, olha como há vários olhares! olhem! e onde esses dois lugares se cruzam? na nossa cara no fim do dia, brochados, com vontade de: 1. viver outra vida 2. suicidar 3. dormir. dormir essas zonas de conflito, esquecer que existe mundo, que existe filosofia, idéia, ideologia e toda essa merda que aparece na TV. será que procuramos pouco? será que só existe ou a homogeinização pasteurizada e liofilizada ou ficar batendo os dentes nos dentes do outro? o espaço da aliança vai permitir uma soneca depois do almoço? acho que o espaço do ser humano, fÃsico ou imaterial, se aproxima mais não do ser ou não ser, mas da reclamação ou não reclamação, ou melhor, das afinidades de ocasião e conveniência. a última aula daquele professor, onde ele contradiz as três aulas anteriores foram a revolução do pastel de vento na minha vida.
É Ernesto vc sempre provocando provocações!
Vejo pessoas confudindo complexidade com generalizações…. nunca viu? Assim… entendem complexidade como tudo de todos, logo todomundoéigualnumaporrasó!
Desafios estão postos nas realidades! Romper com o pensamento “caretesiano”, positivista, condicionador de almas não é tarefa fácil!
Ele está em mim, em vc, em nós!
Para formar-se tornando-se o que se é, é preciso destruir o que se é! (Larrosa, Nietzsche)
Aà está a sociedade, tornando-se o que se é, destruindo o que se é! Loucamente em movimentos simultâneos, entrelaçados, instituÃdos e instituintes, a educação, a tradução, amor, o ódio, a barraca de cachorro quentes, o Jornal da Nacional, a seleção brasileira, a tal gripe e MJ!
É preciso pensar nas singularidades, na formação em percurso, nas experiências, na complexidade, nas redes, nas vidas! É preciso pensar, debater, refazer, desafiar, derrubar, construir, mudar… Sim ernesto é preciso…
Aqui está um inÃcio!
Gostei muito de seus reflexões e compartilho com elas!
Singularidades e complexidades. Comentário sobre as generalizações e formações no mundo mutante de hoje: http://bit.ly/13XSW8