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    Existe um grande problema sobre a percepção do que é Língua e, sobretudo hoje, sobre a legitimação e espaço de certas vozes. Com a Internet se desdobrando e convergindo, cada vez mais, com várias áreas do nosso dia-a-dia, ficou complicado separar profissões e áreas do conhecimento em caixas estanques. As fronteiras estão em crise e saber perguntar é muito importante.

    Nessas duas últimas semanas, começou um grande movimento no Twitter: o “#forasarney”; a resignação virtual se espalhou muito rápido através das redes sociais. O Twitter virou uma fábrica futurista de memes (o que é meme?) com uma espécie de linha de montagem de altíssima velocidade. O “Fora Sarney” foi resultado de vários acontecimentos offline e gerou outros acontecimentos offline, que foram os protestos “reais” nas ruas de algumas capitais. Mas, como sou um profissional das Letras (formado em Letras pela UFBA) e pesquisador em Tradução, uma coisa me chamou a atenção: a percepção sobre Língua e Cultura, além das linhas que separam essas coisas. Para mim, tudo hoje está irreversivelmente interligado.

    Mas para ilustrar melhor meu raciocínio, tenho que mostrar um pouco do histórico do que me levou a pensar em tanta coisa. Os protestos do Fora Sarney, pelo jeito, não foram de grande impacto. O cantor Tico Santa Cruz, da banda Detonautas, comentou sobre isso no seu blog:

    “Os jornais dizem que apenas 26 pessoas no Rio de Janeiro e cerca de 50 em São Paulo foram para as ruas pedir vosso afastamento do cargo. Alguns desdenham de nós. Devem ter razão. Isso mostra que somos a minoria e como minoria numa democracia nos cabe reconhecer que o senhor tem o apoio dos outros milhões de brasileiros, muitos inclusive ridicularizaram nossa iniciativa e por conta disso creio que devamos entender que  eles e  vossos pares estão certos e que por conseguinte o Senhor deve seguir as orientações do Querido Presidente LULA e permanecer presidindo a casa.”

    Leia o texto completo.

    Como resposta, o jornalista Mauricio Stycer escreveu outro texto, não só questionando o Tico Santa Cruz, sua habilidade com a língua portuguesa, mas também sua profissão “AGORA jornalista”. Leia aqui.

    Outro texto interessante, do mesmo jornalista, que vale a leitura é o: “Contra a obrigatoriedade do diploma, a favor de regulamentação“, no qual argumenta sobre a falta de necessidade de um diploma para ser jornalista, mas a necessidade da regulamentação da profissão. Concordo plenamente com ele.

    Mas o ponto que me incomodou foram alguns argumentos sobre o que é preciso para ser jornalista:

    “1. O que é preciso saber e aprender para ser jornalista? É uma questão polêmica. Há alguns consensos: é preciso ter cultura geral e domínio total da língua portuguesa. Conhecer história é fundamental. Matemática e estatística são conhecimentos necessários. Ética. Direito. É preciso ter o hábito de ler jornais e revistas, ter gosto pela informação. Ter espírito crítico, ser capaz de compreender a realidade em que vive, é outro atributo obrigatório.”

    Lembrei imediatamente do time que já citei aqui no blog – Kanavillil Rajagopalan, Paulo Freire, Milton Santos. Esses “requerimentos básicos para ser jornalista” não seriam, na verdade, requerimentos básicos para ser cidadão, ser humano?

    O que mais me incomodou nesse discurso foi a parte “é preciso ter cultura geral e domínio total da língua portuguesa”. O que seria, hoje, cultura geral? Saber de Política? Novelas da Globo? Memes da Internet? Os novos filmes de Bollywood? As descobertas científicas da Coréia do Norte? O que passou ontem no David Letterman? E como dar conta de tanta coisa hoje? A “cultura geral” virou um monstro olímpico e o jornalista um verdadeiro Ulisses.

    E “domínio total da língua portuguesa”… o que seria isso? Quem tem o domínio total da Língua Portuguesa? Saramago? Pessoa? Drummond? Mia Couto? Seria domínio da Gramática ou da Língua? E se o domínio da língua autorizasse uma voz, seja jornalista ou não, estaríamos excluindo (como já acontece em certa medida) a esmagadora maioria dos brasileiros que não têm acesso a um ensino de qualidade e não sabem, finalmente, o que é realmente Língua.

    Os jornalistas sabem o que é Língua? Me arrisco a dizer que, a maioria (mais uma vez esmagadora) não sabe. Nem mesmo os profissionais da área de Letras, muitas vezes, não o sabem.

    O avanço tecnológico bagunçou muita coisa na produção e difusão de informação, que reverberou em como percebemos a Educação, a Política, a Sociedade, a Comunicação como um todo (inclua aí o Jornalismo) e, naturalmente, a Língua.  Não acho que ser jornalista, ou melhor, ter um diploma de Jornalismo dá mais autoridade a uma pessoa para falar o que pensa em grandes veículos de comunicação.

    Hoje, se você quer falar, monte um blog, um fórum de discussão, participe das redes sociais. Talvez você não tenha uma grande platéia, mas a valiosa “relevância” na Internet vem através de uma equação misteriosa que envolve tempo, conhecimento, espírito crítico e variáveis obscuras. Não estar na tevê ou num jornal de grande circulação pouco importa, a ação pura e simples, muitas vezes, vale mais.

    Dialogar com várias áreas é muito importante, perceber que fora da sua área de conhecimento há um universo de coisas a aprender e trocar é primordial e esse constante movimento que, hoje, é o verdadeiro paradigma de qualquer pessoa que pensa o mundo e a sua carreira. O jornalista profissional tem que sair da sua caixinha e entender que mesmo a regulamentação da sua profissão não o dará poder, nem relevância.

    Ao invés de fechar as portas, ter medo dos não-diplomados, não-regulamentados, é interessante procurar fazer o melhor que puder na sua área e saber dialogar com outras áreas: isso não é mais uma questão de sobrevivência, é uma questão de emergência.

    Mas numa coisa temos que concordar: FORA SARNEY!

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    1. sim, os profissionais da linguagem sao cada vez menos requisitados. mas creio que a especialização sera dificilmente superada, porque ha muitos ramos na sociedade.

      • Ernesto Diniz disse:

        Oi Angela,

        A especialização é muito importante. Não temos como dar conta de todo o conhecimento existente. Até mesmo se especializar consome tempo e exige um esforço grande de estudo (independentemente da sua área de atuação).

        Mas criar interfaces, perceber que as conexões existem, dinamizar o que já se sabe, não se acomodar também são grandes diferenciais hoje.

        Obrigado pelo comentário.

    2. Assistam ao vídeo onde expresso um pouco da minha indignação.:
      http://www.youtube.com/watch?v=v9RM8rWg7wY

    3. Geferson Alves disse:

      Liderem e divulguem este movimento:
      IMEDIATAMENTE…vamos colocar um Pano Preto em cada janela, em todo o País, até que Sarney renuncie a presidencia do Senado.
      >>>> 7 de setembro é o dia do FORA SARNEY<<<<<

      Esta mensagem está sendo veiculada em toda internet a partir do Orkut (de Ana Maclarem):

      ana:

      Estamos pedindo uma corrente positiva para limpar toda a corrupção do Senado brasileiro. Ajuda tbm para o dissidente senador Pedro Simon. Ele declarou na Rede Tv dia16.08.09 que em toda a sua vida nunca viu o senado tão pesado com tando roubo como está agora. Ele continuará lá lutando por todos nós e pede que toda população brasileira deve ir para as ruas protestar.

    4. Preconceito, atraso, arrogância e ignorância existem em qualquer meio e qualquer instituição: tudo propagado através da língua, nosso lugar de poder. Pena que atacar é quase sempre mais fácil que trocar idéias e ampliar possibilidades. Amei seu texto.

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