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	<description>exercícios de pequenas liberdades. nihil obstat.</description>
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		<title>a última notícia do outro mundo</title>
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		<pubDate>Mon, 07 Dec 2009 00:24:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carol Custodio</dc:creator>
				<category><![CDATA[o espantalho urbano e outras miragens]]></category>

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		<description><![CDATA[que me apareceu à fresta de janela, com as pestanas longas e os joelhos dobrados, foi a do menino que virou gato e depois voltou como gatolobo. Corremos de volta ao assentamento onde tudo ocorreu, mas não se basta apenas uma má-sorte, ela sempre vem acompanhada de primas, tias, cunhadas e sogras: foi-se o assentamento [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>que me apareceu à fresta de janela, com as pestanas longas e os joelhos dobrados, foi a do menino que virou gato e depois voltou como gatolobo. Corremos de volta ao assentamento onde tudo ocorreu, mas não se basta apenas uma má-sorte, ela sempre vem acompanhada de primas, tias, cunhadas e sogras: foi-se o assentamento e o menino gatolobo agora está roendo os pés da minha mesa de mogno e eu não consigo mais encontrar forças para não me ausentar. Abraço a novidade.<br />
A notícia anterior que me chegara do lado de lá da fronteira foi de um vento que havia emprenhado uma javali do cu doce. Anterior a esta, o sétimo filho de um sétimo filho acabara de comprar um caminhão para seguir em paz sua vida de lobisomem.<br />
Pairam disformes os informes do mundo de todos os inacabamentos sobre meus vasos de girassóis e eles sempre seguem o movimento lunar, o que já é outra herança que me chegou pela janela há mais de três séculos.<br />
O menino gatolobo só se alimenta dos meus pensamentos. Se eu quiser ter algum pensamento só meu é preciso escrevê-lo, do contrário ele os devora sem mais, como um advogado devora os espólios do desgoverno ocasional.<br />
Enquanto escrevo, ele me abocanha e compromete-me o ofício, que é de pensar pelo povo que me cerca; ontem mesmo perdi meu quinhão em pensamentos, vieram buscar-lhos, mas o menino já estava cochilando as tripas cheias da minha mercadoria sobre o tapetinho da sala.<br />
Amanhã pensarei uma maneira de os pensamentos servirem-lhe apenas de sobremesa. Amanhã eu acordo e penso um jeito disto, antes que se me tomem meu lugar no vácuo.</p>
<p>***</p>
<p><em>Para aqueles que ainda escrevem cartas, mesmo com dificuldade motora.</em></p>
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		<title>notas para comentar texto</title>
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		<pubDate>Thu, 12 Nov 2009 02:26:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carol Custodio</dc:creator>
				<category><![CDATA[sensus communis stricto sensu]]></category>

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		<description><![CDATA[[notas para mim e para quem gosta de pegar papel com instruções e guardar no bolso esquerdo em dia {f}útil]
diante de um texto de blog, convém:
1. refletir sobre do que trata o texto;
2. refletir sobre a minha primeira impressão diante do texto;
3. contra-argumentar essa minha primeira opinião;
4. beber uma água;
5. vale a pena comentar?
6. vale. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>[notas para mim e para quem gosta de pegar papel com instruções e guardar no bolso esquerdo em dia {f}útil]</p>
<p>diante de um texto de blog, convém:</p>
<p>1. refletir sobre do que trata o texto;<br />
2. refletir sobre a minha primeira impressão diante do texto;<br />
3. contra-argumentar essa minha primeira opinião;<br />
4. beber uma água;<br />
5. vale a pena comentar?<br />
6. vale. vou escrever com argumentação, clareza e discernimento;<br />
7. odiei. ofendo?<br />
8. cara-coroa:<br />
9. ganhei. mas o que eu queria mesmo?<br />
10. ofendo, com clareza, discernimento e argumentação;<br />
11. tudo isso, sabendo que posso receber uma resposta à altura;<br />
12. adorei. puxo o saco?<br />
13. cara-coroa:<br />
14. não. puxa-saquismo é uma maneira de ofender a inteligência do outro. vou deixar de preguiça e escrever meu comentário com argumentação, discernimento e clareza.<br />
15. quem escreveu: é o que menos importa, mas o autor não está tão morto assim, ah, não mesmo. </p>
<p>parabéns para nós.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>questionário do imaginário</title>
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		<pubDate>Sat, 24 Oct 2009 23:51:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carol Custodio</dc:creator>
				<category><![CDATA[paralaxe]]></category>

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		<description><![CDATA[A Samantha Abreu me enviou há meses esse questionário publicado pela revista francesa Les Inrockuptibles, em 19 de novembro de 2003. Ele foi elaborado por Sophie Calle (agora bem conhecida dos brasileiros) e Grégoire Bouillier (o “ex”) sobre suas próprias questões pessoais, artísticas e filosóficas. Aqui estão minhas respostas, com um título que proponho e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A Samantha Abreu me enviou há meses esse questionário publicado pela revista francesa Les Inrockuptibles, em 19 de novembro de 2003. Ele foi elaborado por Sophie Calle (agora bem conhecida dos brasileiros) e Grégoire Bouillier (o “ex”) sobre suas próprias questões pessoais, artísticas e filosóficas. Aqui estão minhas respostas, com um título que proponho e acho o mais apropriado: questionário do imaginário. Que tal encarar também?</p>
<p>1. Quando você já morreu?<br />
Talvez nem tanto mortes, mas transmutações dolorosas. Mas, por outro lado, se penso no processo completo da morte, tenho uma pequena coleção: quando mudei de um colégio pequeno para um maior, que mais parecia um grande hospital; quando meu pai foi morar em outro estado; quando meu gato foi expulso de casa por minha mãe; quando subi num ônibus deixando para trás uma grande aventura.</p>
<p>2. O que faz você se levantar de manhã?<br />
Pensar que pode haver boas surpresas à luz do dia. Novas histórias. Novos olhares.</p>
<p>3. O que viraram os seus sonhos de infância?<br />
A estilista-maquiadora-pintora-ilusionista-astronauta abraçou a tradução e a tradução intersemiótica como possibilidades não apenas de se ter o que comer, mas de hibridizar esses sonhos todos, canibalizá-los, para que seus poderes passem a ser parte da minha pulsão em continuar traduzindo e transcriando textos.</p>
<p>4. O que distingue você dos outros?<br />
Ouvidos e olhos inquietos para as coisas que me dão prazer e só eu sei.</p>
<p>5. O que falta em você?<br />
(&#8230;) O inacabamento é a melhor forma de se viver, então me faltam pontos fechadores de questão. Então, não me falta nada, pelo menos por enquanto, mas mesmo assim acho que ainda não sei, (&#8230;) Me faltam certezas?</p>
<p>6. Acha que todo mundo poderia ser artista?<br />
Sem vontade não se faz arte.</p>
<p>7. De onde você vem?<br />
Todos os dias eu venho da condição de decifrar e reinterpretar minhas inquietações, ilusões, dúvidas, pseudo-certezas, projeções, frustrações, aspirações.</p>
<p>8. Você acha o seu destino invejável?<br />
Não acredito na inelutabilidade de um destino.</p>
<p>9. A que você renunciou?<br />
Aos olhares críticos aconselhativos que não sabem viver a própria vida e se viciam em arquitetar a vida alheia.</p>
<p>10. O que você faz com o seu dinheiro?<br />
Eu mantenho minha saúde intelectual e física investindo nos meus right now’s.</p>
<p>11. Qual tarefa doméstica provoca mais aversão em você?<br />
Passar roupas, porque é uma reverência ao medo do que os outros vão pensar sobre pregas quase invisíveis. E eu detesto contribuir com a camisa de força do discurso oficial.</p>
<p>12. Quais são os seus prazeres favoritos?<br />
Ouvir novas histórias de conhecidos e desconhecidos. Ver filmes não muito longos. Conversar com atores, escritores e empregadas domésticas que assistem novelas. Anotar histórias impressionantes e quase impossíveis, mas que aconteceram de fato. Comer nozes. Fazer amor quando a fome é intensa; falar sobre saudade; sentir saudade sem motivo. Indicar livros, duvidar, questionar, me maravilhar diante da incerteza plena, absoluta, coletiva e criativa. Observar pessoas.</p>
<p>13. O que você gostaria de ganhar de aniversário?<br />
Algo bem caro, para vingar minha infância em que renunciei presentes. Um kindle, um macbook pro, uma coleção vasta e imodesta de moleskines.<br />
Algo bem criativo: uma carta, um som, uma letra, um desenho.<br />
Algo escandaloso, obsceno, que eu tenha que esconder na gaveta secreta, mas que me faça rir. Ou gozar.</p>
<p>14. Cite três artistas vivos que você deteste.<br />
Britney Spears, Charlton Heston, Carla Perez.</p>
<p>15. O que você defende?<br />
Meus dentes, o direito de discordar, o direito de dormir, o direito de produzir arte, o direito ao comentário. </p>
<p>16. O que você é capaz de recusar?<br />
Qualquer tratado que coloque em risco minha liberdade.</p>
<p>17. Qual é a parte mais frágil do seu corpo?<br />
Fisicamente, os lábios. Casualmente, os nervos. Contraditoriamente, os ouvidos. </p>
<p>18. O que você já foi capaz de fazer por amor?<br />
Abri mão de uma formação em arte no exterior.</p>
<p>19. O que recriminam em você?<br />
O palavrório.</p>
<p>20. Pra que serve a arte?<br />
Promover a libertação da ignorância, facilitar o acesso ao hermético, impulsionar criatividades, impulsionar uma crise que desassujeite o sujeito. Para nada, para limpar a bunda, para copiar, para levar ao banheiro, para caluniar, para contrair uma doença venérea, para manipular grupos, para libertar grupos, para viajar, para preencher questionário. </p>
<p>21. Redija o seu epitáfio.<br />
Tchau invólucro besta,<br />
Oi, possibilidades infinitas!</p>
<p>22. Sob que forma você gostaria de voltar?<br />
Oceano voraz, habitado por deuses e monstros. </p>
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		<pubDate>Tue, 01 Sep 2009 02:55:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carol Custodio</dc:creator>
				<category><![CDATA[cartas registradas]]></category>

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		<description><![CDATA[diante disso, estou toda de orelhas muito eriçadas aqui, captando nossas vidas. queria falar das minhas angústias, mas não sei &#8211; que susto, que susto que passei. coisas em conjunto, o conjunto das coisas dispersas, o conjunto das coisas em conflito enviesado, entre materiais e menos materiais, mas incessantes e afeitos ao volteio. tem uma [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>diante disso, estou toda de orelhas muito eriçadas aqui, captando nossas vidas. queria falar das minhas angústias, mas não sei &#8211; que susto, que susto que passei. coisas em conjunto, o conjunto das coisas dispersas, o conjunto das coisas em conflito enviesado, entre materiais e menos materiais, mas incessantes e afeitos ao volteio. tem uma coisa também de falta física de algumas pessoas, de você inclusive. aquela reticência, saudade? saudade? não, saudade é de uma coisa que já tocamos, não é? com a qual já interagimos, poro no poro? a saudade do imaterial, do conceitual, da ficção orgânica, é irrepreensível. mora no direito e no torto.</p>
<p>queria cair fora, sabe, não queria esperar enlouquecer. volto ao ponto de saída: as minhas coisas. semana passada eu nem te disse nada, mas passei dias com o lado direito do rosto tremendo, uns espasmos chatíssimos. que duraram oito dias. quase enlouqueço. aí eu me recolhi na outra casa, me deram de todas as comidas, e aí que vou melhorando. melhorei. pronto, passou o tremor na cara. </p>
<p>boto os pés em casa novamente, que hoje é segunda. família toda aos pedaços, pau e grito e vômito. e eu, tentando fazer o meu de estudar de escrever. fico sem lugar;desterritorializada, vivendo no/o provisório.  para você, para você não morrer ainda: quero substituir o medo por outra coisa, ou coisas, ou universos. quero, agora mesmo, substituir o medo da minha falta de estrutura me destruir, quero substituir isso por palavras para escrever nessa hiperinterface, substituir o medo priáptico por amor, por imagens de alegria, afeto, sóis, violetas perfumadas de madrugada, pela ruptura das nossas tensões. quero substituir esse medo da impotência por potência, por idéias de músicas que acho que você deveria ouvir, ou livros que deveria ler. quero agora mesmo me ultrapassar e, nesse espaço impossivelmente imaterial, dar-lhe uma vaga, um alento, uma valsa no meu ombro nu. que assim seja, que assim se faça se assim pensarmos: feito. </p>
<p>amor,</p>
<p>c.</p>
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		<pubDate>Tue, 25 Aug 2009 03:32:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carol Custodio</dc:creator>
				<category><![CDATA[cartas registradas]]></category>

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		<description><![CDATA[metáforas não são para qualquer sujeito.
e então, no exercício do altermundo sobre minha falta de bandeide e minha casa lá longe, na putaquepariu, eu me surpreendo com a escassez de metáforas crua e calculada, rarefeita, que persiste bravia apesar de todo aparato anti-mofo à disposição. falo apenas da mesquinhez de quem é contraproducente voluntário das [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>metáforas não são para qualquer sujeito.<br />
e então, no exercício do altermundo sobre minha falta de bandeide e minha casa lá longe, na putaquepariu, eu me surpreendo com a escassez de metáforas crua e calculada, rarefeita, que persiste bravia apesar de todo aparato anti-mofo à disposição. falo apenas da mesquinhez de quem é contraproducente voluntário das coisas de abrir apetites. e tu me faz falta, que tu é belo.</p>
<p>como andas?</p>
]]></content:encoded>
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		<pubDate>Sat, 22 Aug 2009 02:38:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carol Custodio</dc:creator>
				<category><![CDATA[meme]]></category>

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		<description><![CDATA[pular meme substitui, sem a menor dificuldade (já que estão todos em casa mesmo), o exercício de pular onda. lá vem um meme, pulem!
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			<content:encoded><![CDATA[<p>pular meme substitui, sem a menor dificuldade (já que estão todos em casa mesmo), o exercício de pular onda. lá vem um meme, pulem!</p>
]]></content:encoded>
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		<pubDate>Sat, 22 Aug 2009 02:33:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carol Custodio</dc:creator>
				<category><![CDATA[meme]]></category>

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		<description><![CDATA[o meme do momento não tem escrúpulo. ele rompe com toda e qualquer hierarquia e cumpre seu papel: de informação que quer ser replicada.
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			<content:encoded><![CDATA[<p>o meme do momento não tem escrúpulo. ele rompe com toda e qualquer hierarquia e cumpre seu papel: de informação que quer ser replicada.</p>
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		<pubDate>Sat, 22 Aug 2009 02:26:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carol Custodio</dc:creator>
				<category><![CDATA[sensus communis stricto sensu]]></category>

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		<description><![CDATA[eu gosto de gente. da antropofagia do sensus communis que é o sensorial coletivo, respirado, transpirado e atualizado de um olho a outro.
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			<content:encoded><![CDATA[<p>eu gosto de gente. da antropofagia do sensus communis que é o sensorial coletivo, respirado, transpirado e atualizado de um olho a outro.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Cinco minutos pra mim</title>
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		<pubDate>Wed, 12 Aug 2009 02:33:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carol Custodio</dc:creator>
				<category><![CDATA[dos diários do pornógrafo]]></category>
		<category><![CDATA[priapismo]]></category>

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		<description><![CDATA[- Eu tenho problema com vento. 
Caminhamos mais alguns metros, ela sentou no meio-fio. O que eu faço, o que eu faço com o corpo sentado no meio-fio?
- Tenho problema com vento. 
- Por quê? 
Cleópatra passou por nós, vinda das catacumbas do inferno egípcio que era o bar-livraria-cinema do outro lado da rua. Eu [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>- Eu tenho problema com vento. </p>
<p>Caminhamos mais alguns metros, ela sentou no meio-fio. O que eu faço, o que eu faço com o corpo sentado no meio-fio?</p>
<p>- Tenho problema com vento. </p>
<p>- Por quê? </p>
<p>Cleópatra passou por nós, vinda das catacumbas do inferno egípcio que era o bar-livraria-cinema do outro lado da rua. Eu queria lamber os seios de Cleópatra, com frio e tudo, eu pensando em sorvete de peito, a outra no chão reclamando do vento. Não. Não era reclamação, era uma declaração, dessas que você não pode esquecer, é material, isso é material para quem escreve, ouço.</p>
<p>- Por que você escreve? Por que tudo é material pra você? Se tudo for material, nunca vai escrever. Não senta pra escrever, fica anotando material. Merda, isso. Que merda, anotar tudo, parece um escravo do futuro em que você vai reinventar a literatura. Meu filho, literatura, essa merda toda aí é tudo ficção.</p>
<p>Achei graça só pra mim. Me embrulhei um pouco mais, um merda por alguns segundos elevados a X infinito, um merda com a barriga cheia de comida japonesa, embutido, feito de tripa, fiquei só tripas, intestinos, vias de esgotamento. Gordo sem ser gordo, estranho, um pastel frio de queijo meio vazio, com orégano. Meu cabelo, meu deus. Essa vitrine, essa vitrine, dá pra ver tudo. Daqui de cima vejo o nariz dela. É meio grande, quase feio. Mas eu queria mesmo eram aqueles peitos duros da outra, brancos e gelados pairando na avenida, quase saltados para fora.</p>
<p>- Por que tu não gosta de vento? – eu, mil sacos, todos cheios.<br />
- Por que tu não gosta de Bjork? – ela, cara de cu no meio-fio. </p>
<p>Cleópatra quase tropeça na calçada, deu um pulinho e um gritinho e disse opa pra um velho que passava, ia ser um gol de enfiada, os peitos congelados na cara do velho, ia quebrar tudo, os ossos, os óculos, as esperanças, meu tesão, tudo, tudo quebrado. A roupa era aquele modelo estranho de fantasia, gola-discóide-querendo-ser-colar encimando decote até umbigo. Os egípcios sabotam meu erotismo das quatro da tarde. 4:02, ela cruzou as pernas na rua suja. Fiquei com nojo imediatamente e percebi que havia compaixão em meio ao nojo, como limpar bunda de criança, compaixão. </p>
<p>Tinha a ver com um dia na praia, e era nordeste. Lembro ela contando, o garçom demorando de trazer a conta, eu puto e apaixonado pelo material que ia se desenvolvendo, queria escrever aquela história, anotei só pra mim, palhaço. Ventos a tantos quilômetros por hora, usinas de energia eólica, areia nos olhos, areia na bunda, areia na comida, areia na garrafa de água mineral, areia no nariz grande, areia nos cabelos finos e emaranhados, areia no umbigo, areia ao vento, nada mais a declarar. Ela chorava no meio-fio depois de me espalhar a merda na cara, eu todo ali, artista com cara de pastel de tripa e ainda lembrando história de infância e tudo mais, complacente e enamorado. Grunhi qualquer coisa às 4:05.</p>
<p>Atravessei a rua, fui ter com aqueles peitos egípcios, mais cinco minutos de vento.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>2009: o ano em que li “O Pequeno Príncipe”</title>
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		<pubDate>Thu, 23 Jul 2009 03:50:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carol Custodio</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura adaptada]]></category>
		<category><![CDATA[Quadrinhos]]></category>

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		<description><![CDATA[Mas não foi livro favorito das misses que acabei de ler: minha cópia deve ter caído do caminhão de mudanças há alguns anos, intocada, junto com “As Cartas do Pequeno Príncipe” que ganhei na quinta série (eu queria um brinquedo). Hoje, agora mesmo, gostaria de recuperar meus livros sumidos de Antoine de Saint-Exupéry, especialmente o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Mas não foi livro favorito das misses que acabei de ler: minha cópia deve ter caído do caminhão de mudanças há alguns anos, intocada, junto com “As Cartas do Pequeno Príncipe” que ganhei na quinta série (eu queria um brinquedo). Hoje, agora mesmo, gostaria de recuperar meus livros sumidos de Antoine de Saint-Exupéry, especialmente o primeiro, para um exercício que me dá muito prazer: compará-lo mais detalhadamente à adaptação para os quadrinhos, que descansa aqui sobre a minha mesa, de autoria de outro francês, o brilhante quadrinista Joann Sfar. </p>
<p>Lançado pela editora Agir em 2008, o quadrinho “O Pequeno Príncipe”, em capa dura e papel couché fosco, 110 páginas, causa impacto já na capa, apresentando um menino louro em primeiro plano, com grandes olhos azuis extraterrenos lembrando um mangá esboçado, mas delicado: a história do aviador que tenta consertar seu avião caído em um deserto africano e encontra um menino vindo do espaço é contada não apenas pelos textos nos balões, mas principalmente pelo movimento expressivo do traço de Sfar, um hachurado incerto com cores e curvas que lembram os quadros de Van Gogh; e o que se vê por dentro é a arte seqüencial coordenada à sensação de que tudo está tremeluzindo ao sol ou ao luar do deserto, pelo espaço entre as estrelas e nos planetas visitados pelo menino. Tudo parece um sonho desenhado por alguém que acabou de acordar e não quer perder nenhum detalhe. </p>
<p>Não gostaria, no entanto, de comparar a “cópia” com o “original”. Fico bem longe desses exercícios hierarquizantes e – desculpem-me os críticos “especialistas” – nauseantes, que quase sempre terminam com a frase “isso não é Exupéry” ou “prefiro o original, mil vezes”. Au contraire, proponho um olhar pós-estruturalista, onde a adaptação é encarada como exercício de interpretação, muito particular e, assim, resultando em uma obra nova: o olhar de outro autor, que se apropria e reescreve a história com a sua própria bagagem, com seus sentimentos e impressões. Na contracapa, a editora declara:</p>
<p>“Joann Sfar, (&#8230;) apresenta sua versão de O pequeno príncipe, o livro da sua infância”. </p>
<p>Pronto, era o que eu precisava. O livro da infância do artista, o qual deve ter lido e relido, memorizado, recitado. Então, posso lançar as perguntas aos pesquisadores e a mim: quais os rastros da obra de partida nesta nova obra, quais os deslocamentos proporcionados pelo olhar contemporâneo de um artista que se consagrou na arte dos quadrinhos? Quais as nossas sensações diante desse outro pequeno príncipe, de olhos muito abertos para as histórias que aprende e reflete?</p>
<p>Examinar essa transmutação de uma forma de texto a outra – mesmas mídias, linguagens diferentes – especialmente como é traduzido grande parte do texto, a voz do narrador, páginas e páginas de conflitos bastante introspectivos em ilustrações tão fluentes é o grande prato cheio que vejo aqui. Enquanto lia o quadrinho, lembrava de outro texto, o texto que realmente me marcou: a adaptação fílmica de 1974, do diretor Stanley Donen. Não consigo me desvencilhar da raposa interpretada por Gene Wilder. Talvez tenham sido essas duas leituras juntas, se sobrepondo, que me fizeram chorar hoje à tarde: eu e meu próprio pequeno príncipe, perdidos no meu planeta, resgatados do caminhão de mudança da infância. </p>
<p><em>foto: Carol Custodio</em></p>
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