que me apareceu à fresta de janela, com as pestanas longas e os joelhos dobrados, foi a do menino que virou gato e depois voltou como gatolobo. Corremos de volta ao assentamento onde tudo ocorreu, mas não se basta apenas uma má-sorte, ela sempre vem acompanhada de primas, tias, cunhadas e sogras: foi-se o assentamento e o menino gatolobo agora está roendo os pés da minha mesa de mogno e eu não consigo mais encontrar forças para não me ausentar. Abraço a novidade.
A notícia anterior que me chegara do lado de lá da fronteira foi de um vento que havia emprenhado uma javali do cu doce. Anterior a esta, o sétimo filho de um sétimo filho acabara de comprar um caminhão para seguir em paz sua vida de lobisomem.
Pairam disformes os informes do mundo de todos os inacabamentos sobre meus vasos de girassóis e eles sempre seguem o movimento lunar, o que já é outra herança que me chegou pela janela há mais de três séculos.
O menino gatolobo só se alimenta dos meus pensamentos. Se eu quiser ter algum pensamento só meu é preciso escrevê-lo, do contrário ele os devora sem mais, como um advogado devora os espólios do desgoverno ocasional.
Enquanto escrevo, ele me abocanha e compromete-me o ofício, que é de pensar pelo povo que me cerca; ontem mesmo perdi meu quinhão em pensamentos, vieram buscar-lhos, mas o menino já estava cochilando as tripas cheias da minha mercadoria sobre o tapetinho da sala.
Amanhã pensarei uma maneira de os pensamentos servirem-lhe apenas de sobremesa. Amanhã eu acordo e penso um jeito disto, antes que se me tomem meu lugar no vácuo.
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Para aqueles que ainda escrevem cartas, mesmo com dificuldade motora.
Esse ano eu escrevi uma carta de 4 folhas para uma pessoa muito querida que mora em Floripa. Adorou, e frisou: “saudades da época que as pessoas gostavam de escrever cartas”. Sinto essa mesma saudade. Saudades com nome de Ana Carolina também =^) Beijos e queijos
Tava aqui pensando nas inumeras coisas que o gatolobo já comeu, levando-se em consideração que cada um tenha seu gatolobo. Tantas idéias cuja existências já não mais nos pertence…
Vida longa aos bloquinhos.