A Samantha Abreu me enviou há meses esse questionário publicado pela revista francesa Les Inrockuptibles, em 19 de novembro de 2003. Ele foi elaborado por Sophie Calle (agora bem conhecida dos brasileiros) e Grégoire Bouillier (o “ex”) sobre suas próprias questões pessoais, artísticas e filosóficas. Aqui estão minhas respostas, com um título que proponho e acho o mais apropriado: questionário do imaginário. Que tal encarar também?
1. Quando você já morreu?
Talvez nem tanto mortes, mas transmutações dolorosas. Mas, por outro lado, se penso no processo completo da morte, tenho uma pequena coleção: quando mudei de um colégio pequeno para um maior, que mais parecia um grande hospital; quando meu pai foi morar em outro estado; quando meu gato foi expulso de casa por minha mãe; quando subi num ônibus deixando para trás uma grande aventura.
2. O que faz você se levantar de manhã?
Pensar que pode haver boas surpresas à luz do dia. Novas histórias. Novos olhares.
3. O que viraram os seus sonhos de infância?
A estilista-maquiadora-pintora-ilusionista-astronauta abraçou a tradução e a tradução intersemiótica como possibilidades não apenas de se ter o que comer, mas de hibridizar esses sonhos todos, canibalizá-los, para que seus poderes passem a ser parte da minha pulsão em continuar traduzindo e transcriando textos.
4. O que distingue você dos outros?
Ouvidos e olhos inquietos para as coisas que me dão prazer e só eu sei.
5. O que falta em você?
(…) O inacabamento é a melhor forma de se viver, então me faltam pontos fechadores de questão. Então, não me falta nada, pelo menos por enquanto, mas mesmo assim acho que ainda não sei, (…) Me faltam certezas?
6. Acha que todo mundo poderia ser artista?
Sem vontade não se faz arte.
7. De onde você vem?
Todos os dias eu venho da condição de decifrar e reinterpretar minhas inquietações, ilusões, dúvidas, pseudo-certezas, projeções, frustrações, aspirações.
8. Você acha o seu destino invejável?
Não acredito na inelutabilidade de um destino.
9. A que você renunciou?
Aos olhares críticos aconselhativos que não sabem viver a própria vida e se viciam em arquitetar a vida alheia.
10. O que você faz com o seu dinheiro?
Eu mantenho minha saúde intelectual e física investindo nos meus right now’s.
11. Qual tarefa doméstica provoca mais aversão em você?
Passar roupas, porque é uma reverência ao medo do que os outros vão pensar sobre pregas quase invisíveis. E eu detesto contribuir com a camisa de força do discurso oficial.
12. Quais são os seus prazeres favoritos?
Ouvir novas histórias de conhecidos e desconhecidos. Ver filmes não muito longos. Conversar com atores, escritores e empregadas domésticas que assistem novelas. Anotar histórias impressionantes e quase impossíveis, mas que aconteceram de fato. Comer nozes. Fazer amor quando a fome é intensa; falar sobre saudade; sentir saudade sem motivo. Indicar livros, duvidar, questionar, me maravilhar diante da incerteza plena, absoluta, coletiva e criativa. Observar pessoas.
13. O que você gostaria de ganhar de aniversário?
Algo bem caro, para vingar minha infância em que renunciei presentes. Um kindle, um macbook pro, uma coleção vasta e imodesta de moleskines.
Algo bem criativo: uma carta, um som, uma letra, um desenho.
Algo escandaloso, obsceno, que eu tenha que esconder na gaveta secreta, mas que me faça rir. Ou gozar.
14. Cite três artistas vivos que você deteste.
Britney Spears, Charlton Heston, Carla Perez.
15. O que você defende?
Meus dentes, o direito de discordar, o direito de dormir, o direito de produzir arte, o direito ao comentário.
16. O que você é capaz de recusar?
Qualquer tratado que coloque em risco minha liberdade.
17. Qual é a parte mais frágil do seu corpo?
Fisicamente, os lábios. Casualmente, os nervos. Contraditoriamente, os ouvidos.
18. O que você já foi capaz de fazer por amor?
Abri mão de uma formação em arte no exterior.
19. O que recriminam em você?
O palavrório.
20. Pra que serve a arte?
Promover a libertação da ignorância, facilitar o acesso ao hermético, impulsionar criatividades, impulsionar uma crise que desassujeite o sujeito. Para nada, para limpar a bunda, para copiar, para levar ao banheiro, para caluniar, para contrair uma doença venérea, para manipular grupos, para libertar grupos, para viajar, para preencher questionário.
21. Redija o seu epitáfio.
Tchau invólucro besta,
Oi, possibilidades infinitas!
22. Sob que forma você gostaria de voltar?
Oceano voraz, habitado por deuses e monstros.
Adorei as respostas.
bjs!!
as duas coisas que você melhor me faz: aprender e rir. muito.