Sobre Tradução – parte I

Recebi um e-mail (não, foi um scrap no Facebook mesmo) de uma amiga que não vejo há dez anos que quer/resolveu “ser tradutora”. Provavelmente ela viu no meu perfil do Facebook/Orkut que eu sou “tradutora profissional” e achou que eu poderia orienta-la de alguma forma. O fato é que até agora não consegui responder ao scrap de um jeito não abusivo.
Algumas várias pessoas já me perguntaram a mesma coisa e até já quiseram trabalhar na mesma empresa que eu, surgiram “do nada” e queriam indicações, e-mails particulares dos meus superiores, etc. Sim, eu posso ajudar. Mas, como em muitas outras profissões, não há como queimar etapas no processo de formação. Ninguém é tradutor só porque fala outro idioma. O filho do seu vizinho que acaba de voltar do intercâmbio na Alemanha, por exemplo (deixe o garoto em paz).
Aproveito agora para tentar responder ao scrap da minha amiga enquanto inauguro meu espaço aqui no CAOS+. Espero que você não se importe e consiga tirar algum proveito.
Perguntaria, então, à amiga, logo nas primeiras linhas (acredito na importância da provocação):
“Hermengarda, o que você acha que um tradutor faz todos os dias?”
E você, leitor? Já se perguntou o que é um tradutor? Aliás, quem é o tradutor? Onde ele está agora? Em casa ou em um escritório? Existem empresas de tradução? Quanto ganha um tradutor? Existem tradutores profissionais? E cursos de especialização? E faculdades? É divertido? O QUE É TRADUÇÃO?
Uma tentativa de definição para tradutor: “profissional que lê um texto atentamente e o reinterpreta em outro idioma”. Definido assim, esse tradutor — vamos brincar um pouco de semântica e dizer “esse leitor profissional” — está agora em um lugar calmo, vamos dizer, um café com um laptop aberto e conectado a uma rede wi-fi. Ao mesmo tempo, ele conversa com outros tradutores, com a família, com os amigos, pesquisa na Wikipedia, no Google, no Babylon, no Houaiss, no Priberam, envia e recebe scraps no Orkut, no Facebook e no Twitter. Ele tem um prazo, um cliente, uma ferramenta de tradução (mais assunto, guarde aí no seu bolso para o próximo capítulo) e tem um grau de dificuldade associado à um montante de variáveis quase sempre indefinido como, por exemplo, a qualidade do sono na noite anterior, contas a pagar, uma reunião de pais, uma nova paixão.
O tradutor/leitor profissional, esse sujeito que depois ficará invisível (quem é que lembra que ele existe, mesmo? Outro assunto para outro texto) está conectado ao mundo das informações, procurando contextos, campos semânticos: como Dr. House (ou como Sherlock Holmes, o que for mais fácil), ele escreve em seu quadro branco mental tudo o que “viu”. Procura as possibilidades de “redizer”aquilo que acabou de ler e, algumas vezes, no próprio idioma do texto “original” (vamos chamar de “texto de partida”).
O tradutor reescreve o texto no idioma do texto de partida? Sim, o tradutor/leitor profissional – esse que está sentado no café, com o laptop — precisa reorganizar esse texto, por n motivos. Parafrasear, simplificar, reduzir. Tornar uma frase mais enxuta. Tudo muito rapidamente. Enquanto isso, ele procura recriar esse texto em outro idioma, que vamos chamar de “idioma de chegada”. Sim, recriar.
Uma fala minha, de três anos atrás: “Há oito anos comecei a me debruçar sobre textos em inglês e passa-los para português.” De acordo com as teorias pós-estruturalistas, a frase anterior está quase totalmente errada: não se “passa” um texto para outra língua. O texto não é “transportado” para o outro lado do rio. O texto não é um barco cheio de peixes (mais discussão, mais um tópico).
Hermengarda, o que quero realmente dizer é que é muito complicado responder às suas perguntas sem antes falar sobre Tradução. Por isso, vou encurtar esse primeiro texto: o tradutor é um leitor muito eficiente, operando dentro de um prazo para fazer com que um texto se transforme em um texto em outro idioma, com as devidas perdas e ganhos de todo processo de recriação.
Hermengarda, tente desenhar o que você está pensando agora. Percebe? O que você vai obter é a mesma coisa que estava pensando? Quanto às outras perguntas, elas são simples: sim, há algumas empresas de tradução aqui no Brasil. Algumas trabalham somente com textos técnicos (softwares, manuais de instruções, revistas de produtos, entre outros), outras somente com tradução de livros didáticos ou literários, ou os dois. Há ainda empresas que trabalham com legendagem, com tradução simultânea (é o pessoal que digo que tem “dois cérebros”) e com tradução de sites. E há os freelancers que, muitas vezes, ganham bem mais que um tradutor de carteira assinada. Há cursos de especialização, algumas faculdades oferecem pós-graduação em Tradução mas muitos são cursos novos. Algumas empresas contratam apenas tradutores formados em Letras. É uma grande quantidade de variáveis e fatores que, no fim, se distribuem entre tradutores contratados e tradutores freelancers.
Quer ser tradutor? Quer estudar tradução? Quer ser tradutor juramentado? Vá à luta. Faça buscas no Google, procure por empresas de tradução, se disponha a fazer testes. Traduza textos de livros que gosta, publique no seu blog, envie para amigos mais experientes no idioma. Procure por faculdades, cursos de especialização, palestras. Tenha, principalmente, paciência e saiba lidar com críticas. Leia bastante em seu idioma e no idioma que aprendeu e que deseja traduzir. Pesquise sobre ferramentas de tradução, faça amizade com tradutores mais velhos, com experiência. Viaje, passe um tempo em outro país, se puder. Mas quer uma última dica? Não pergunte quanto ganha o tradutor ali, sentado no café. Pergunte por livros. Por cursos. Por ferramentas. Por dicionários. Mas nunca quanto ele cobrou para traduzir aquele contrato em 24 horas.
Até a próxima!
