Sobre Tradução – parte I

160509-11

Recebi um e-mail (não, foi um scrap no Facebook mesmo) de uma amiga que não vejo há dez anos que quer/resolveu “ser tradutora”. Provavelmente ela viu no meu perfil do Facebook/Orkut que eu sou “tradutora profissional” e achou que eu poderia orienta-la de alguma forma. O fato é que até agora não consegui responder ao scrap de um jeito não abusivo.

Algumas várias pessoas já me perguntaram a mesma coisa e até já quiseram trabalhar na mesma empresa que eu, surgiram “do nada” e queriam indicações, e-mails particulares dos meus superiores, etc. Sim, eu posso ajudar. Mas, como em muitas outras profissões, não há como queimar etapas no processo de formação. Ninguém é tradutor só porque fala outro idioma. O filho do seu vizinho que acaba de voltar do intercâmbio na Alemanha, por exemplo (deixe o garoto em paz).

Aproveito agora para tentar responder ao scrap da minha amiga enquanto inauguro meu espaço aqui no CAOS+. Espero que você não se importe e consiga tirar algum proveito.

Perguntaria, então, à amiga, logo nas primeiras linhas (acredito na importância da provocação):

“Hermengarda, o que você acha que um tradutor faz todos os dias?”

E você, leitor? Já se perguntou o que é um tradutor? Aliás, quem é o tradutor? Onde ele está agora? Em casa ou em um escritório? Existem empresas de tradução? Quanto ganha um tradutor? Existem tradutores profissionais? E cursos de especialização? E faculdades? É divertido? O QUE É TRADUÇÃO?

Uma tentativa de definição para tradutor: “profissional que lê um texto atentamente e o reinterpreta em outro idioma”. Definido assim, esse tradutor — vamos brincar um pouco de semântica e dizer “esse leitor profissional” — está agora em um lugar calmo, vamos dizer, um café com um laptop aberto e conectado a uma rede wi-fi. Ao mesmo tempo, ele conversa com outros tradutores, com a família, com os amigos, pesquisa na Wikipedia, no Google, no Babylon, no Houaiss, no Priberam, envia e recebe scraps no Orkut, no Facebook e no Twitter. Ele tem um prazo, um cliente, uma ferramenta de tradução (mais assunto, guarde aí no seu bolso para o próximo capítulo) e tem um grau de dificuldade associado à um montante de variáveis quase sempre indefinido como, por exemplo, a qualidade do sono na noite anterior, contas a pagar, uma reunião de pais, uma nova paixão.

O tradutor/leitor profissional, esse sujeito que depois ficará invisível (quem é que lembra que ele existe, mesmo? Outro assunto para outro texto) está conectado ao mundo das informações, procurando contextos, campos semânticos: como Dr. House (ou como Sherlock Holmes, o que for mais fácil), ele escreve em seu quadro branco mental tudo o que “viu”. Procura as possibilidades de “redizer”aquilo que acabou de ler e, algumas vezes, no próprio idioma do texto “original” (vamos chamar de “texto de partida”).

O tradutor reescreve o texto no idioma do texto de partida? Sim, o tradutor/leitor profissional – esse que está sentado no café, com o laptop — precisa reorganizar esse texto, por n motivos. Parafrasear, simplificar, reduzir. Tornar uma frase mais enxuta. Tudo muito rapidamente. Enquanto isso, ele procura recriar esse texto em outro idioma, que vamos chamar de “idioma de chegada”. Sim, recriar.

Uma fala minha, de três anos atrás: “Há oito anos comecei a me debruçar sobre textos em inglês e passa-los para português.” De acordo com as teorias pós-estruturalistas, a frase anterior está quase totalmente errada: não se “passa” um texto para outra língua. O texto não é “transportado” para o outro lado do rio. O texto não é um barco cheio de peixes (mais discussão, mais um tópico).

Hermengarda, o que quero realmente dizer é que é muito complicado responder às suas perguntas sem antes falar sobre Tradução. Por isso, vou encurtar esse primeiro texto: o tradutor é um leitor muito eficiente, operando dentro de um prazo para fazer com que um texto se transforme em um texto em outro idioma, com as devidas perdas e ganhos de todo processo de recriação.

Hermengarda, tente desenhar o que você está pensando agora. Percebe? O que você vai obter é a mesma coisa que estava pensando? Quanto às outras perguntas, elas são simples: sim, há algumas empresas de tradução aqui no Brasil. Algumas trabalham somente com textos técnicos (softwares, manuais de instruções, revistas de produtos, entre outros), outras somente com tradução de livros didáticos ou literários, ou os dois. Há ainda empresas que trabalham com legendagem, com tradução simultânea (é o pessoal que digo que tem “dois cérebros”) e com tradução de sites. E há os freelancers que, muitas vezes, ganham bem mais que um tradutor de carteira assinada. Há cursos de especialização, algumas faculdades oferecem pós-graduação em Tradução mas muitos são cursos novos. Algumas empresas contratam apenas tradutores formados em Letras. É uma grande quantidade de variáveis e fatores que, no fim, se distribuem entre tradutores contratados e tradutores freelancers.

Quer ser tradutor? Quer estudar tradução? Quer ser tradutor juramentado? Vá à luta. Faça buscas no Google, procure por empresas de tradução, se disponha a fazer testes. Traduza textos de livros que gosta, publique no seu blog, envie para amigos mais experientes no idioma. Procure por faculdades, cursos de especialização, palestras. Tenha, principalmente, paciência e saiba lidar com críticas. Leia bastante em seu idioma e no idioma que aprendeu e que deseja traduzir. Pesquise sobre ferramentas de tradução, faça amizade com tradutores mais velhos, com experiência. Viaje, passe um tempo em outro país, se puder. Mas quer uma última dica? Não pergunte quanto ganha o tradutor ali, sentado no café. Pergunte por livros. Por cursos. Por ferramentas. Por dicionários. Mas nunca quanto ele cobrou para traduzir aquele contrato em 24 horas.

Até a próxima!

Comentar

 

9 comentátios para “Sobre Tradução – parte I”

  1. Verônica Domingues  em 16/05/09

    Intrigantes as ideias que nos passam…

    Aqui, me parece uma maneira atraente e educada de derrubar alguns estigmas sobre a tradução… O texto me remeteu a questão:

    - Como traduzem a tradução?

    Essa reflexão perpassa o viés de um ideário coletivo da tradução como colagem de palavras. Aqui me surge mais uma questão:

    - Onde ficam os sentidos dos significados?

    O texto traz significados e sentidos de atos do ofício de traduzir, mostrando que ser tradutor é uma questão de postura, de visão de mundo e de muito trabalho…

    Não há como descolar a tradução de seu sentido filosófico e até mesmo ontológico… Tradução é formação! Aí então outras questões aparecem:

    - Entendendo a tradução como formação, atos e ethos do sujeito, poderíamos concebê-la em etapas?

    - Um tradutor experiente é necessariamente aquele mais velho? O tempo sobrepõe-se ao espaço e ao entendimento da experiência como atualização, formação?

    Pois é, seriam só intrigantes se não fossem também instigantes as ideias que nos passam… E assim é esse texto… instigante… Viu só?

    Tradução, traduções… Traduza!!!???

    Está posto para o debate!

    Beeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeijos


    Voltar ao topo da página
  2. Carol Custodio  em 17/05/09

    Verônica,

    Quando escrevo “não há como queimar etapas no processo de formação” refiro-me aos que insistem em achar que o conhecimento (não vou nem colocar aqui um “quantificador” para isso) de um idioma é suficiente para se traduzir um texto. Há técnicas a serem aprendidas, se não em conjunto com a teoria, pelo menos na prática. E isso leva tempo, sim. É observável – e falo da posição de quem trabalha no ofício diariamente, convivendo e colaborando com vários outros tradutores e revisores, de diversos estados brasileiros e até de outros países – que os tradutores mais antigos são, não raro, mais ágeis e proficientes em seu ofício. E não me refiro à idade, me refiro ao tempo de serviço mesmo (você não precisa estar na terceira idade para ser considerado veterano, não é?). O trabalho de tradução sério, especialmente quando envolve uma equipe, com revisores e editores, é algo constantemente avaliado, com feedbacks e discussões conjuntas. É muito raro um tradutor fazer um serviço de baixa qualidade e continuar em um mercado competitivo e fechado. Claro que há aqueles que “pararam no tempo”, são resistentes à algumas mudanças, especialmente se forem tecnológicas. Mas os tradutores mais jovens – como eu – entendem que ainda há muito a ser lido, em todas as modalidades textuais e procuram estudar, refletir quando recebem os feedbacks e colocar tudo isso em prática. Em breve falarei mais sobre essas questões e espero, inclusive, convidar outros tradutores para colaborar conosco.

    Muito obrigada pelo comentário.

    Sds,

    Carol


    Voltar ao topo da página
  3. Natássia  em 17/05/09

    Carol, como diriam em Portugal: muitA bom!

    É isso mesmo. Traduzir é transcender tanto o texto como nossa visão de mundo. Isso inclui enxergar a importância do papel do tradutor, mesmo na sua invisibilidade. Não dá pra engravidar e ter o filho em 2 meses. Também não dá pra ficar com ele 12 meses na barriga. Tudo tem seu tempo.

    Até mais!


    Voltar ao topo da página
  4. Deise  em 18/05/09

    Amei Carol,
    Os seus comentários têm tudo haver. Nós que estamos envolvidos nesse processo de maneira sistemática, sabemos o quanto é necessário entender para se chegar a respostas plausíveis para as nossas escolhas no momento das famosas ÇÔES (reduções, simplificações, adições, substituições, etc.), portanto, para aqueles curiosos e interessados em ingressar na área, nada melhor que ouvir os conselhos de alguém que está mergulhado nesse processo, tanto profissionalmente quanto academicamente.

    Beijos


    Voltar ao topo da página
  5. Paula  em 18/05/09

    Em um único texto, milhões de coisas a serem discutidas. Assim é falar de tradução. Tenho certeza de que não faltará assunto pra você, Carol. :)
    Esse tradutor está muito charmoso trabalhando em um café com um laptop, provavelmente bebendo um café delicioso (nosso vício!)… vale lembrar que é um trabalho muito solitário, sentado diante do computador o dia inteiro (olha mais assunto aí: a saúde do tradutor) em um escritório com duas ou três pessoas ou em casa sozinho, interagindo com outras pessoas quase sempre virtualmente…
    Acho que faltou dizer uma coisa pra quem quer começar a trabalhar com tradução: tem que ter paixão. Pela pesquisa, pela leitura, pela língua. Tem que gostar de trabalhar sozinho. E tem que saber que você fará um bom trabalho e permanecerá, quase sempre, invisível. Que ouvirá as críticas mais absurdas e injustas de quem não faz idéia do que é esse trabalho. E ouvirá também muitas críticas que te ajudarão a fazer a cada dia um trabalho melhor.

    Gostei muito do espaço :)

    beijos,
    Paula


    Voltar ao topo da página
  6. Paulo Raviere  em 09/06/09

    Ê Carol, li um livro delicioso esses dias em que Paulo Rónai conta sua trajetória como tradutor de diversas línguas. Uma maravilha, para indicar a qualquer aspirante ao ofício. Lembrei dele quando li seu texto.

    A Tradução Vivida, procura lá na biblioteca.


    Voltar ao topo da página
  7. Fabio  em 30/06/09

    Sim, Rónai escreveu coisas muito boas, sempre com estilo coloquial, quase conversando. Além de “A tradução vivida”, gostei também de “Escola de tradutores”. Aprendi bastante com ele e entre um aprendizado e outro ficava babando com as “aventuras” tradutórias que ele contava nos livros e artigos. Costumo dizer que Paulo Rónai, além de pioneiro da profissionalização do tradutor no Brasil, foi também precursor dos atuais blogs de tradução em português.

    Para Carol: obrigado por deixar um link no fidus interpres para este seu CAOS+! Gostei da proposta do blog, que pelo visto já tem um público de nível. E já está devidamente incluído na categoria “blogs de tradução em português” do fidusinterpres.com. Vida longa ao CAOS+! :-)


    Voltar ao topo da página
  8. ALAN  em 05/10/09

    Carolzinha,

    Muito bacana vc ter a paciência de ser tão didática nesse seu post. Gostaria que todas as Hermengardas que me perseguem tivessem acesso a ele. Porém, fiz uma pausa na leitura quando esbarrei nas palavras perdas e ganhos. É um posicionamento teórico? Bjos


    Voltar ao topo da página
  9. Valéria Coronetti  em 27/11/09

    Carol:

    Excelente! Nos meus anos de experiencia como instrutora de Inglês e Italiano constatei as mesmas coisas q vc, falar um outro idioma não é suficiente pra ser tradutor ou instrutor. Como coordenafora em uma escola de idiomas, cansei de entrevistar candidatos que só porque haviam feito intercambio de 6 meses nno exterior, achavam q seriam bons profissionais no ramo de ensino de idiomas…
    É bem isso q vc falou não dá pra “queimar” etapas em nada na nossa vida. A experiência só vem com o tempo,dedicação e seriedade.
    Também trabalho em uma empresa de tradução e você está de parabéns or esse Blog!


    Voltar ao topo da página

Para comentar

Notifique-me sobre futuros comentários aqui

* Quer que sua imagem apareça nos comentários?
Faça upload da sua imagem para o Gravatar. (O que é Gravatar?)

Voltar ao topo da página